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domingo, 10 de novembro de 2013

Introdução à Visão Reformada de Mundo




Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl 24:1), mas nem sempre essa posse e autoridade de Deus sobre tudo que existe e acontece no mundo é reconhecida e respeitada. Em termos de sociedade humana, podemos citar três configurações que variam no reconhecimento e fidelidade ao senhorio de Deus sobre o mundo: 





A configuração que menos glorifica a Deus é a de uma sociedade secularizada (tal como tem sido até agora o nosso Brasil no século XXI). Nela prevalece o conceito de que cada esfera da vida humana seja independente, sendo governada por suas regras particulares, a maioria sem nenhum compromisso com o Reino de Deus, ou com a Sua Palavra. Biblicamente falando, esse arranjo é um tipo de “politeísmo”, uma vez que são muitas as fontes de autoridade que governam essa sociedade, e diversos ‘senhores’ disputam nossa lealdade a todo instante, às vezes com éticas separadas, e até mesmo contraditórias, em esferas diferentes da vida. O que essa sociedade gera são pessoas fragmentadas e incoerentes, alienadas de Deus, solos duros para a semente do Evangelho, onde costuma-se transformar apenas as vidas particulares, enquanto a nação em geral prossegue a caminho das trevas.






As sociedades européias da Idade Média tinham uma proposta melhor que o secularismo atual, embora ainda fosse longe do ideal. Seria propor o governo de Deus em todas as esferas, sendo mediado por Sua Igreja (no caso a Instituição Religiosa chamada Igreja Católica Romana). Na prática, a instituição religiosa se tornou a suprema autoridade da sociedade, a voz de Deus para o mundo, ditando todas as suas regras. 






A Reforma Protestante teve como um dos seus grandes motivadores a constatação da falibilidade da instituição religiosa chamada Igreja Católica Romana. Sendo essa instituição coberta dos erros e pecados humanos, não pode ser ela considerada a mediadora do governo de Deus sobre a sociedade. A conclusão que os reformadores chegaram é que essa mediação só pode ser feita pela Palavra de Deus, onde Ele revelou perfeitamente a Sua vontade  para cada esfera da vida humana. Assim cada área da sociedade deve ser objetivamente avaliada se está mais próxima ou mais distante da vontade de Deus na mesma medida em que segue os princípios que Deus estabeleceu na Sua Palavra para essa área. Naquilo em que ela estiver distante ou discordante, deve ser corrigida para adequar-se ao que a Palavra ordenou para ela. ‘Reforma’ então, não será apenas uma correção teórica da doutrina da Salvação, mas um trabalho contínuo de conformar-se o todo da vida humana à vontade de Deus, para a Sua glória. Esta terceira posição é a mais coerente com a Palavra de Deus, e a que pode produzir mais frutos na conformação da sociedade à vontade de Deus.





Nesse propósito, vejamos como a Bíblia estabelece a vontade de Deus para cada esfera da vida:



FAMÍLIA

Glorifica a Deus quando promove uma descendência piedosa na terra (Ml 2:15). Uma família começa quando um homem amadurece, se emancipa de seus pais, e encontra uma esposa para com ela formar uma nova unidade (Gn 2:24). Deus estabelece como propósito comum da vida dos homens construir sua casa, obter sustento, casar-se, ter filhos, casar seus filhos, ter netos deles e orar pela paz para a sua sociedade (Jr 29:4-7), afim de que a raça humana seja multiplicada, conforme a ordem de Deus (Gn 1:28) e Sua bênção sobre Seu povo (Sl 115:13-16).
As esposas devem obedecer a liderança dos seus maridos, e os maridos devem sustentar suas esposas e dar a vida por elas (Ef 5:22-33), numa aliança só dissolvida pela morte (1Co 7:10,11,39). Os pais criam os filhos na doutrina e admoestação do Senhor, e os filhos obedecem e honram seus pais (Ef 6:1-4) para que seus dias sejam prolongados.



                                                                     TRABALHO
Glorifica a Deus quando presta um serviço ao próximo por meio da vocação individual. O trabalho não surgiu como castigo do pecado, sempre foi o propósito de Deus que o homem trabalhasse (Gn 2:15), viver ociosamente é pecado (2Ts 3:10-12). O castigo foi o cansaço e a dificuldade que foram agregados ao trabalho (Gn 3:17-19).

Deus tem uma vocação ou chamado para cada um, que se desenvolve em suas aptidões, habilidades e posições que ocupa (1Co 7:7,17), e mesmo aqueles que não estão envolvidos integralmente num Ministério da Palavra (pastor, evangelista, missionário, etc) devem considerar-se a serviço de Deus e do Seu Reino quando exercem suas profissões e executam seus trabalhos.
Por isso devem cumprir suas atividades com todas as suas forças (Ec 9:10), de todo o coração, caprichando sempre em tudo, por se considerar servindo a Cristo (Cl 3:23,24). Nosso trabalho deve ser enquadrado no cumprimento da ordem de amar ao próximo como a nós mesmos, em que estejamos fazendo algum bem às pessoas à nossa volta, de forma que minha vocação particular contribua para o cumprimento da vocação maior da humanidade de encher a terra e dominá-la (Gn 1:28).



CIÊNCIA
Glorifica a Deus quando aumenta o nosso conhecimento da Criação de Deus. “O SENHOR dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento” (Pv 2:6): tal constatação é essencial para que o ser humano consiga, como quer, aumentar o seu conhecimento do mundo à sua volta. Tudo que Deus diz sobre o mundo na Escritura, Ele o faz sem erro (Jo 17:17). A Bíblia não discorre sobre todas os detalhes de todos os assuntos, mas ao menos nos temas básicos e fundamentais de todas as ciências, a Escritura faz sim, numerosas afirmações. Portanto, a Ciência em todos seus ramos não tem o direito de discordar das afirmações bíblicas, mas deve partir delas como pressupostos e construir suas teorias a partir desse fundamento, ouvindo a Deus, para começar a entender como funciona o mundo que esse mesmo Deus cria e sustenta.
A atual atitude rebelde dos cientistas diante da Palavra de Deus os condena a continuarem tateando na escuridão, sem nenhuma perspectiva de conhecerem a verdade dos fatos sobre o mundo em que vivemos, a não ser por “coincidência”, ou melhor, misericórdia de Deus em prover algum bem ao mundo por meio dos trabalhos deles. Portanto, devemos rejeitar de antemão as teorias científicas que se baseiam em falsos fundamentos, quando notamos que as bases delas contradizem a Palavra de Deus, e só devemos ser dado crédito à ciência que for feita a partir de pressupostos bíblicos.



EDUCAÇÃO
Glorifica a Deus quando compartilha a verdade. Para longe da mera utilidade profissional, a Educação segundo a Bíblia tem como princípio irrevogável a transmissão da verdade, a qual liberta os que a recebem, pois a verdade é uma pessoa: Jesus Cristo. Sendo Deus onisciente, Ele sabe a verdade. Sendo Deus benevolente, Ele nos quer dar a verdade. Sendo Deus onipotente, Ele é capaz de nos dar a verdade. Sendo Deus providente, Ele nos vocaciona a transmitir a verdade aos outros. Deus nos chama a cumprir uma pacto entre as gerações, em que a nova geração receberá o conhecimento da antiga (Dt 6:1-7). A Bíblia narra que a falta de transmissão educacional sobre os valores do Reino fez com que após a morte de Josué, a geração dos Juízes perdesse o conhecimento de Deus, para sua desgraça (Jz 2:10). Isto ilustra a suprema responsabilidade, primeiro dos pais (Ef 6:4), e segundo da Igreja (2Tm 2:2), de passar adiante o conhecimento sobre Deus, para que o Seu povo não pereça (Os 4:6). Tal perigo é uma constante em nossos dias, em que os pensamentos sobre Deus são cada vez mais soterrados debaixo da avalanche de secularismo que os currículos escolares e acadêmicos têm adotado. Isto significa que os pais deveriam dar preferência a escolas cristãs para seus filhos, e se não puderem fazer isso, que seja redobrado o ensino da fé dentro de casa, para contra-atacar os falsos ensinos que os jovens recebem diariamente nas instituições escolares.



ECONOMIA
Glorifica a Deus quando garante que o trabalho seja materialmente recompensado (1Tm 5:18). A sociedade precisa ter um sistema em que a pessoa que for mais diligente e esforçada no seu trabalho, possa proporcionalmente colher os frutos da prosperidade (Pv 10:4; 12:24; 13:4), ainda que não devamos nos prender a nada deste mundo (1Co 7:29-31), pois somos como forasteiros nesta terra (1Pe 2:11). Deus ordena uma economia justa, e reprova a desonestidade nos preços (Lv 19:35,36), a retenção de mercadorias (Pv 11:26), o atraso nos salários e a exploração (Tg 5:1-6). O dinheiro em si é neutro, mas o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (1Tm 6:7-10). Aqueles a quem Deus abençoa com riquezas (1Sm 2:7) têm o dever de partilhar generosamente (1Tm 6:18), sendo que a avareza, o reter e acumular indefinidamente, é chamada de idolatria (Cl 3:5) e um estilo de vida que dificulta a salvação (Mt 19:23).



GOVERNO
Glorifica a Deus quando providencia Segurança e Justiça para o povo. É Deus quem ordena a existência de autoridades na sociedade (Rm 13:1), e nos ordena honrá-las. Mas se alguma autoridade contradizer os mandamentos de Deus é dever de todos desobedecer a essa autoridade, como os apóstolos, Daniel e seus amigos bem exemplificaram (At 5:29; Dn 3:16-18; Dn 6:10). Deus deu a espada ao governo para este execute a vingança contra os malfeitores (Rm 13:1-5) enquanto recompensa os bons (1Pe 2:13,14), provendo uma vida tranqüila à sociedade (1Tm 2:2) e sendo para isso justamente sustentado por impostos (Rm 13:6,7). De grande importância é o envolvimento político dos cristãos na sociedade, principalmente para trabalhar pela máxima aproximação das leis de seu país às leis que Deus revelou na Bíblia. O que Deus disse ser certo e errado, sempre o será, e bem-aventurado será o povo que tomar a Palavra de Deus como sua constituição. De fato, à medida que as nações se convertem a Cristo, esperamos que todos os povos adotem as leis de Deus (Is 2:1-5).



ARTE
Glorifica a Deus quando exerce uma criatividade virtuosa. Exercer uma arte é criar coisas, assim, o Deus criador compartilhou conosco um pouco do Seu poder, na medida em que nos permite fazer assim. Mas quais serão os usos lícitos da arte? Certamente, e em primeiro lugar, para adoração, principalmente a arte da música, tanto no Velho (Nm 10:10) como no Novo Testamento (Ef 5:19), sendo que Deus deseja ser louvado com um “cântico novo” cuja melodia deve ser “bem tocada” (Sl 33:3); o que estabelece tanto a legitimidade da criação artística, como o mérito de se buscar a excelência técnica.
As Artes têm grande influência sobre as pessoas a respeito da maneira como elas vêem e experimentam o mundo. Elas servem tanto para celebração como para comunicação. Seja para mal ou para bem, por meio das artes se transmitem conceitos, informações, emoções, idéias, que muitas vezes se fixam profundamente no coração daqueles que as contemplam. Tendo sobre esse assunto o dever de ‘levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo’ (2Co 10:5), e encher nossa mente de pensamentos sobre ‘o que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, de boa fama, de alguma virtude, e de algum louvor’ (Fp 4:8), concluímos que somente as obras de arte que nos conduzem para esses alvos bíblicos merecem nossa atenção enquanto consumidores e nossa intenção enquanto artistas.



LAZER
Glorifica a Deus quando celebra com gratidão e pureza as bênçãos que Deus nos dá. Deus não nos dá apenas mandamentos estritos e tarefas árduas. Ele também nos ordena gozar a vida (Ec 9:7-9) e aproveitar bem tudo que Ele nos dá (1Tm 6:17).
Mas esta área é uma das que mais gera dúvida sobre o certo e o errado. Devo ou não devo ir a tal lugar ou fazer tal coisa?
Podemos descobrir se indagarmos: com isso eu quebro algum mandamento da Palavra? Nosso lazer não pode ser um desperdício de tempo (Ef 5:16), não pode ser fruto da ociosidade (2Ts 3:11), não pode ser inconveniente, não pode dominar a nossa vida (1Co 6:12), não pode escandalizar ninguém (1Co 10:32). Além disso, conseguimos usufruir deste lazer ou prazer com gratidão e pureza diante de Deus? Se não podemos orar agradecendo a Deus por tal coisa, é porque ela não veio como benção e sim como tentação; esse lazer estará fazendo mais mal do que bem e, portanto deve ser cortado (Mt 5:29-30).



IGREJA
Glorifica a Deus quando trabalha pela expansão do Seu Reino por meio do Evangelho de Jesus Cristo. Em relação à visão de mundo, a Igreja, ou seja, o povo de Deus tem o papel imprescindível de proclamar a vontade de Deus para cada uma das áreas acima, a todos os membros da sociedade, quer estes creiam no Evangelho, ou não. A Igreja deve constantemente corrigir-se a si mesma, e chamar todas as áreas à correção, por meio dos ensinos, pregações, exemplos, influências, vocações e posições que seus membros realizam ou ocupam na sociedade, ensinando as nações a obedecer a Cristo em todas as coisas (Mt 28:18-20).



CONCLUSÃO
Os serafins clamavam: “Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da Sua glória!” (Is 6:3). A ênfase da Visão Reformada é declarar o mundo como o grande teatro da glória de Deus. O que fazemos quando orientamos todas as coisas para a glória de Deus (1Co 10:31) é simplesmente nos juntar a esse eterno culto de louvor que a Criação já presta ao Criador. Para isso que nós existimos, e sendo redimidos por Cristo e regenerados pelo Espírito Santo, para isto estamos sendo capacitados. Tão somente reconheçamos que Ele é a fonte de todas as coisas, o centro da História e o único alvo das nossas vidas. Glorificaremos assim a Deus, buscando continuar a reforma da sociedade para que todas as suas esferas sejam governadas pelos valores bíblicos que Ele nos revelou, na esperança de ver se cumprindo em nossos dias a profecia que a terra se encherá do conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem o mar (Hc 2:14).




FONTES: http://www.contra-mundum.org/castellano/declaraciones/coalicion/Cosm_Arts.pdf; http://www.contra-mundum.org/castellano/declaraciones/coalicion/Cosm_Gob.pdf;  Vivendo para a Glória de Deus. Joel Beeke. Editora Fiel.; Lei e Evangelho. Greg Bahsen. Editora Monergismo.

domingo, 4 de novembro de 2012

Os princípios espirituais da Reforma Protestante




A - A Reforma Protestante e seus princípios espirituais.
No dia 31 de outubro, comemoram-se 495 anos da reforma protestante. A melhor forma de olhar para esse evento é tentar enxergar os frutos espirituais que daí surgiram. Fazendo assim, concluiremos que se tratou de um avivamento espiritual, em que Deus levantou novamente a bandeira do Evangelho puro e simples, obscurecida por muitos anos de distorções. Ao longo do desenvolvimento da Reforma, foi estabelecido um consenso sobre quais verdades deveriam ser confessadas para guardar o povo de Deus de desviar-se novamente. 


Esses princípios funcionam como cercas para proteger a integridade doutrinária da Igreja de Cristo. Dentro da observância, crença e proclamação destes, há segurança e vida no Evangelho Bíblico. Fora desses princípios, inevitavelmente temos um Cristianismo corrompido.


  


Dentro dessa zona de segurança, podem acontecer erros doutrinários e pequenas divergências, mas fora deles, é certa a heresia e descaracterização da Igreja que Cristo fundou.





Vejamos quais são esses cinco seguintes princípios espirituais da Reforma, e reparemos um pouco das contradições atuais que têm aparecido pelo enfraquecimento desses princípios, quando alguma das cercas é quebrada, e a Igreja se desvia novamente nos dias de hoje:

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1 – SOLA GRATIA - Somente pela graça somos salvos
Que diz que não é por qualquer obra que fizermos que somos salvos, mas unicamente pela misericórdia de Deus concedida a nós gratuitamente. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus, não vem das obras, para que ninguém se glorie. (Ef 2:8,9). A graça de Deus para nós é um ato livre, espontâneo, que não teve um motivo ou merecimento naquele que recebe. Nesse sentido, a Sua misericórdia e ajuda, a Sua mão estendida para nos salvar, é totalmente livre e gratuita, não pode ser adquirida, comprada ou conquistada por nada que façamos. 




1.1 - Somente pela graça somos salvos – contradições atuais.
1.1.1 – Crer que somos salvos devido aos nossos atos na conversão, salvos porque nos arrependemos, ou porque cremos, ou porque aceitamos Jesus, etc. Isso desvia o foco da obra de Deus na pessoa para os atos da própria pessoa, dos quais nenhum seria realizado, se Deus antes não tivesse estendido Sua Graça, e chamado o pecador pela pregação do Evangelho.
1.1.2 – Ênfase no livre-arbítrio, a qual obscurece nossa total dependência da misericórdia de Deus.
1.1.3 – Crer que alguém merece ir para o céu, quando, impressionados pelas virtudes de alguém, esquecemos que todo ser humano merece ir para o inferno.



1.2 - Somente pela graça somos salvos – aplicações.
1.2.1 – Reconhecer que a salvação é um presente a ser recebido. Ela teve um preço, mas o preço era muito alto para que eu ou você pudéssemos pagar. Quem pagou foi Cristo.
1.2.2 – Reconhecer que a obra de Deus por nós e em nós é que nos salva, não as nossas obras, que Ele opera. Quem sustenta a árvore é a raiz, não os frutos.
1.2.3 – As nossas obras espirituais não são para conquistar nem preservar a salvação, são só um tributo de gratidão, por amor Àquele que nos amou primeiro.


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2 – SOLA FIDE - Somente pela fé somos justificados.
Ser justificado não é ser feito justo, mas ser considerado justo. Deus é justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (Rm 3:26). Na justificação sou considerado tão perfeito como Cristo e só por esta substituição é que serei considerado filho de Deus (Gl 4:26,27). Deus tem que nos considerar justos apesar de não sermos justos. Esta doutrina humilha ao máximo toda pretensão religiosa, pois só seremos aceitos porque outra Pessoa, o Nosso Senhor Jesus Cristo, fez tudo que deveríamos ter feito. Isso implica negarmos a nós mesmos para abraçar somente a Cristo. Renunciarmos à nossa justiça para invocar a justiça de Outro. Nada menos que isso pode ser chamado de FÉ EM CRISTO.




2.1 - Somente pela fé somos justificados – contradições atuais.
2.1.1 – Ignorância da doutrina da justificação, o que vai levar a distorções sobre o papel da fé.
2.1.2 – Fé no poder da fé, como um poder que o ser humano tem em si, e não fé como uma confiança na pessoa e obra de Cristo.
2.1.3 – Crença na perda da salvação, que conduz ao legalismo.



2.2 - Somente pela fé somos justificados – aplicações.
2.2.1 - Não perguntaremos o tamanho da nossa fé, mas em quem confiamos. O que importa é que Ele, Cristo, é perfeito e completo por nós (2Tm 1:12).
2.2.2 – Essa justificação é por meio da fé (pela fé), não por causa da fé. A fé em Cristo é apenas o instrumento pelo qual Deus traz a salvação até nós.
2.2.3 – Retiramos toda a base para o orgulho espiritual - Aquele que não pratica, mas crê nAquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça (Rm 4:5). De que ímpio a passagem está falando? De nós, ímpios! Nenhum de nós é bom o suficiente, e nunca seremos bons o suficiente nesta vida.

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3 – SOLUS CRISTUS - Somente por Cristo chegamos a Deus.

Moisés pediu a Deus: Rogo-te que me mostres a tua glória. Mas Deus lhe disse: não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá. (Êxodo 33:20) Isso não é porque Deus é irritável ou caprichoso. É por que: Ele é santo e nós somos pecadores. Ele é puro e nós somos impuros. Não podemos ter um contato direto com Deus. Precisamos de um mediador. Cristo é este único mediador (1Tm 2:5).



3.1 - Somente por Cristo chegamos a Deus – contradições atuais.
3.1.1- Depender de líderes, igrejas ou cultos para buscar a Deus. Crer no poder da oração de algum crente em especial.
3.1.2- Crer em objetos, rituais, vigílias, jejuns, campanhas, ou qualquer coisa que não tenha nada a ver com Cristo, como caminho para Deus ou o Seu poder.
3.1.3- Crer que se pode ter contato direto com Deus em adoração, sem a mediação de Cristo.




3.2 - Somente por Cristo chegamos a Deus – aplicações.
3.2.1 – Proclamar que fora de Jesus só podemos encontrar juízo e condenação. Somente a face justa de Deus nos aparecerá.
3.2.2 – Sublinhar a exclusividade da fé em Cristo como único caminho para Deus. Não afirmar a paz de Deus para quem não for um cristão genuíno (Jo 3:36).
3.2.3 – Estamos livres de tentar ser perfeitos aos olhos do mundo. A minha moralidade (‘testemunho’) não salva ninguém. Se eu não falar da obra de Cristo, nada vale.



Solus Cristus - "Cristo e nada mais. O homem só precisa de Cristo"
Trecho do filme Lutero (1953)

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4 – SOLA SCRIPTURA - Somente a Escritura é autoridade infalível.




A grande quantidade de erros doutrinários da igreja na época da reforma veio de que ela considerou outras fontes, tais como visões, revelações, concílios, mestres e papas, como autoridades infalíveis do Espírito Santo. Mas só a Bíblia é a orientação clara e certa do Espírito Santo. Por isso que o Espírito Santo nos diz na Bíblia que se alguém falar para a igreja, fale segundo a Palavra de Deus (1Pe 4:11), que é a espada do Espírito Santo (Ef 6:17), não indo além do que está escrito (1Co 4:6), nada acrescentando (Pv 30:6) nem diminuindo (Dt 12:32).




4.1 - Somente a Escritura é autoridade infalível – contradições atuais.
4.1.1- Buscar orientação de “profetas”, revelações e visões extrabíblicas.
4.1.2- Confiar e depender mais da Ciência atual do que da Bíblia em primeiro lugar.
4.1.3- Obrigar as pessoas crerem em qualquer coisa que não esteja na Bíblia.




4.2 - Somente a Escritura é autoridade infalível – aplicações.
4.2.1 – Assim como Cristo é a imagem do Pai, considerar a Bíblia a imagem do Espírito Santo, que manifestou perfeitamente nela os Seus santos pensamentos, ao inspirá-la (2Tm 4:16).
4.2.2 – Não tomarmos o nome de Deus em vão, dizendo que Ele disse algo, se isso não estiver escrito na Bíblia (Jr 23:31; Ez 13:7)
4.2.3 – Não devemos buscar nem a Bíblia sem o Espírito Santo, nem o Espírito Santo sem a Bíblia, devemos na verdade buscar o Espírito Santo na Bíblia, porque é este o local designado por Ele para O encontrarmos. Temos que estar sempre suplicando que o Espírito Santo venha com poder sobre a Sua Palavra, afim de sermos transformados quando Ele a usar para falar ao nosso coração.


Sola Scriptura - "Minha consciência permanece cativa à Palavra de Deus" 
- Trecho do (outro) filme Lutero (2003)



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5 – SOLI DEO GLORIA - Somente a Deus toda a glória.
Deus faz todas as coisas para a Sua glória, Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas;
Isso deve se espelhar no meu modo de viver o Evangelho: me diminuindo para que o nome de Cristo cresça e receba cada vez mais glória por minha vida. O Espírito Santo não veio para nos tornar poderosos. Ele veio para nos converter e nos santificar. E isto requer que sejamos cada vez mais enfraquecidos e humilhados, e não que sejamos exaltados com demonstrações de poder. Lembremos que a maior demonstração de poder de Cristo foi entregar a Sua vida pelos nossos pecados. E a demonstração do Seu poder em nós está em conformar a nossa vida à dEle: vida de renúncia, fraqueza, sacrifício e martírio pelo avanço do Reino de Deus. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo (2Co 12:9). Glória, pois, a Ele eternamente. Amém.



5.1 - Somente a Deus toda a glória – contradições atuais.
5.1.1 – Sede por grandeza numérica, econômica e social da Igreja.
5.1.2 – Exaltação de homens e mulheres, não como meros instrumentos de Deus, mas como servos ‘poderosos’ (contradição, se é servo, como é poderoso?)
5.1.3 – Tendência a uma bajulação contínua, para aumentar a ‘auto estima’ dos crentes.




5.2 - Somente a Deus toda a glória – aplicações.
5.2.1 - Não devemos proclamar um evangelho de poder, mas confiar no poder do evangelho, pois isso é que glorifica a Deus.
5.2.2 - Somente o nome do Senhor é exaltado (Sl 148:13). Isso significa que o nosso nome não deve ser exaltado em coisa alguma.
5.2.3 – Fazer todas as coisas para a glória de Deus (1Co 10:31). Isso se faz quando procuramos a maneira mais fiel e bíblica de participar deste mundo e sociedade, em todas as áreas, por exemplo:
Família – Glorifica a Deus quando promove uma descendência piedosa na terra.
Educação – Glorifica a Deus quando compartilha a verdade.
Arte – Glorifica a Deus quando exerce uma criatividade virtuosa e bela.
Ciência – Glorifica a Deus quando, em concordância com a Bíblia, aumenta o nosso conhecimento da Criação de Deus.
Trabalho – Glorifica a Deus quando presta um serviço ao próximo por meio da vocação individual.
Economia – Glorifica a Deus quando garante que o trabalho seja materialmente recompensado.
Governo – Glorifica a Deus quando providenciar Segurança e Justiça para o povo.
Lazer – Glorifica a Deus quando celebra com gratidão a Deus as bênçãos que Ele nos dá.


Grande parte deste resumo é citação ou condensação da série neste blog sobre a Reforma da Igreja – veja os textos completos em:
http://martelodocarpinteiro.blogspot.com.br/search/label/Reforma%20da%20Igreja

 PRIMEIRA IGREJA BATISTA DA FAZENDA BOTAFOGO - 04/11/2012 -
OS PRINCÍPIOS ESPIRITUAIS DA REFORMA PROTESTANTE

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

SOMENTE A DEUS TODA A GLÓRIA

(Soli Deo Gloria)
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“Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao Teu nome dá glória, por amor da Tua misericórdia e da Tua fidelidade” (Salmo 115.1).
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Somente Deus é perfeito. Isso significa que nós somos imperfeitos.
Somente Deus é puro. Isso significa que nós somos impuros.
Somente Deus é justo. Isso significa que nós somos injustos.
Somente Deus é onipotente. Isso significa que nossa capacidade é limitada.
Somente Deus é onisciente. Isso significa que nós não sabemos tudo.
Somente Deus é onipresente. Isso significa que nós não estamos presentes a tudo.
Somente Deus é bom (Mc 10:18). Isso significa que nós somos maus.
Somente Deus é santo (Ap 15:4). Isso significa que nós somos pecadores.
Somente Deus é o Legislador (Tg 4:12). Isso significa que nós não podemos julgar os outros.
Somente Deus é imortal (1Tm 6:16). Isso significa que nós somos mortais.
Somente Deus está sobre todos (Ef 4:6). Isso significa que nós não estamos acima dos outros.
Somente Deus é por todos (Ef 4:6). Isso significa que nós não podemos ajudar a todos.
Somente Deus é em todos (Ef 4:6). Isso significa que nós não podemos influenciar todas as pessoas.
Somente há um Deus (1Co 8:4). Isso significa que nós não somos deuses, apenas criaturas.
Somente Deus é dono de tudo (1Co 8:6). Isso significa que nós não somos donos de nada.
Somente para Deus nós vivemos (1Co 8:6). Isso significa que nós não podemos viver para nós mesmos, para outras coisas, causas ou pessoas. E também que as pessoas não podem viver para nós.
Somente de Deus vem a honra que merece ser buscada (Jo 5:44). Isso significa que nós não podemos receber a honra que vem dos homens.
Somente a Deus devemos adorar. Isso significa que nós não devemos adorar a mais nada, nem ninguém (Lc 4:8).
Somente um é nosso Pai, o que está nos céus (Mt 23:9). Isso significa que nós não podemos dar reverência total a qualquer pessoa da terra.
Somente a Deus pertence o temor (Jr 10:7). Isso significa que nós não podemos temer a mais ninguém.
Somente o Senhor é Deus de todos os reinos da terra (Is 37:16). Isso significa que nós não dominamos em nada o destino das nações.
Somente o Senhor será exaltado (Is 2:17). Isso significa que nós não podemos ser exaltados; nossa arrogância deve ser humilhada e nossa altivez deve ser abatida.
Somente o nome do Senhor é exaltado (Sl 148:13). Isso significa que o nosso nome não deve ser exaltado.
Somente o Senhor Deus faz maravilhas (Sl 72:18). Isso significa que nós não podemos fazer maravilhas.
Somente o Senhor nos faz habitar em segurança (Sl 4:8). Isso significa que nós não podemos garantir nossa segurança.
Somente o Senhor conhece os corações dos homens (2Cr 6:30). Isso significa que nós não podemos saber o que há nos corações das pessoas.
Somente para Deus são todas as coisas (Rm 11:36). Isso significa que nada é para nós.
Somente por conhecer a Deus e ao Cristo que Ele enviou é que as pessoas receberão vida eterna (Jo 17:3). Isso significa que as pessoas não precisam nos conhecer para receberem a vida eterna.
Somente Cristo é o Senhor (1Co 8:6). Isso significa que nós não dominamos nada.
Somente por Cristo são todas as coisas (1Co 8:6). Isso significa que nada é por nós.
Somente Cristo é Mediador (1Tm 2:5). Isso significa que nós não podemos fazer a ligação entre Deus e os homens.
Somente há um corpo de Cristo (1Co 12:12). Isso significa que somos membros uns dos outros, e todos membros de Cristo.
Somente um ato de justiça de Cristo trouxe a Graça da Salvação (Rm 5:18). Isso significa que nenhum ato de nossa justiça pode trazer a Graça da Salvação sobre nós.
Somente a obediência de Cristo pôde nos fazer justos (Rm 5:19). Isso significa que a nossa obediência não pode nos fazer justos.
Somente por Cristo o dom da Graça abundou sobre muitos (Rm 5:15). Isso significa que nós não podemos providenciar a salvação dos outros.
Somente por Cristo reinaremos em vida (Rm 5:17). Isso significa que o Reino de Deus é o único reino que nos interessa.
Somente o Cristo é nosso Mestre (Mt 23:10). Isso significa que nós não devemos nos considerar mestres uns aos outros.
Somente em Cristo podemos dar fruto (Jo 15:4,5). Isso significa que sem Ele nada podemos fazer.
Somente há um Espírito Santo (1Co 12:11).Isso significa que todos os nossos dons são repartidos por Ele.
Somente o Espírito Santo opera todas as coisas (1Co 12:11).Isso significa que nós não operamos nada.
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SOMENTE A DEUS TODA A GLÓRIA.
ISSO SIGNIFICA QUE NENHUMA GLÓRIA DEVE SER DADA A NÓS.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Somente por Cristo chegamos a Deus (3a parte)

"Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus;" (Hb 9:24)

O que mais deveremos fazer ao confiar que somente por Cristo chegamos a Deus?

3 – Cristo, em Sua obra a nosso favor, terá que ser a base de nossos atos de culto.
Nosso louvor, nossas orações, nossas pregações, nossa leitura da Palavra, em tudo que se faz para adorar a Deus deverá ter como base a obra sacrificial de Cristo a nosso favor.
Não devemos nos aproximar de Deus em nossos próprios termos. Mencionemos sempre no culto que tudo é feito “em nome de Jesus”, pois por causa dEle que pudemos ser aceitos como povo de Deus.
“Ninguém vem ao Pai senão por mim” – não fala apenas da salvação mas também da adoração. Nosso culto não poderia ser prestado sem o sacrifício de Cristo. Nossas orações não merecem ser ouvidas, nosso louvores não merecem ser recebidos, nossas obras a favor de Deus e de Seu Reino, tudo só pode ser ofertado porque a Oferta Perfeita está em Cristo por nós.
Sendo assim, não deve haver culto em que não se mencione a Cruz e a Ressurreição. Ele próprio, o Senhor Jesus, estabeleceu a Ceia para que Sua obra fosse sempre lembrada.
Dentro deste raciocínio, é equivocado cantar louvores, fazer orações e pregações nos termos das cerimônias do Antigo Testamento, tais como templo, altar, Arca, incenso, tabernáculo, sacrifícios, e etc, se não houver uma explicação ou entendimento dessas realidades segundo a obra de Cristo por nós.
Pois todas elas apontavam para O que havia de vir: Cristo; eram sombras das coisas futuras (Cl 2:17), ou seja, eram precursoras das bençãos atuais da salvação em Cristo. Deve-se explicar corretamente como as antigas cerimônias correspondem à nossa vida em Cristo hoje.
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Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: O Senhor vosso Deus vos levantará dentre vossos irmãos um profeta como eu; a ele ouvireis. (At 7:37)
Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. (Hb 4:14)
Haverá um justo que domine sobre os homens. (2Sm 23:3)

O que mais deveremos fazer ao confiar que somente por Cristo chegamos a Deus?

4 – Devemos reconhecer Cristo plenamente nos seus ofícios de profeta, sacerdote e rei.

Como nosso Profeta, reconhecemos que Ele é a revelação completa de Deus, não faltando nada para ser revelado, que toda a Escritura existe para falar dEle, que tudo que Ele fez, tudo que Ele ensinou, são a vontade perfeita de Deus para nós. Que Ele é a Luz, a Verdade e a Vida, o Mestre perfeito, que devemos reconhecer Seus mandamentos e ordenanças como justos, retos e verdadeiros, que qualquer dúvida sobre a vontade de Deus para nós se resolve olhando para a vida dEle, colocada como exemplo para que sigamos os Seus passos.

Como nosso Sacerdote, reconhecemos que só por Ele temos perdão dos pecados, que ainda hoje Ele intercede por nós quando pecamos, que Ele é nosso Advogado, Salvador perfeito, nossa proteção, o que nos livra da ira futura, o que nos comprou a salvação eterna e perfeita, nos reconcilia com o Pai, que Ele é o único que apaga as nossas transgressões.

Como nosso Rei, reconhecemos que só Ele governa nossa vida, que Ele deve ter prioridade em nossos pensamentos, que devemos nos submeter à Sua vontade, que Ele está assentado à direita do Pai, reinando, até que os Seus inimigos sejam postos debaixo dos Seus pés. Que não era possível que a morte Lhe segurasse, porque Ele é o Príncipe da Vida, e só dEle dizer "Eu Sou", Seus inimigos caem para trás.
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Ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra.
(Fp 2:10).

O que mais deveremos fazer ao confiar que somente por Cristo chegamos a Deus?

5 - Afirmamos que só Cristo é o Senhor da nossa consciência.
Foi Ele quem derramou o Seu sangue, Ele que nos comprou com o Seu sacrifício, somos dEle e de mais ninguém. Só Ele revelou plenamente a vontade de Deus. A Escritura toda existe para falar dEle. Portanto nossa lealdade última é devida somente a Ele. Só Cristo é nosso Senhor.
Desta forma, nenhuma igreja, pastor, líder, declaração doutrinária ou qualquer coisa ou pessoa pode se colocar no meio desta relação pessoal entre Cristo e o crente. Rejeitamos que qualquer instituição ou pessoa que não seja Cristo, tenha o direito de mover a nossa consciência, por ordem ou decreto, para obedecermos à vontade de Deus. Menos ainda que atos como passar por uma cerimônia, participar de um grupo, ser leal a uma instituição ou pessoa, vão mediar nosso contato com Deus.
Assim deve ser questionada, por exemplo, a usurpação da posição de Cristo como único mediador, que alguns líderes cristãos fazem, ao agirem como se a igreja ou os crentes dependessem deles para servir a Deus, ou saber a vontade divina. “Deus dá a visão para o pastor e o pastor dá a visão para a igreja” é uma frase comum, mas profundamente antibíblica. Ela dá poder demais aos homens, sobre a base fraquíssima e instável da experiência interior.
Só Cristo é o Cabeça. E a igreja é Seu corpo. Num corpo, cada membro liga-se diretamente à cabeça, sendo controlado por ela, recebendo ordens diretamente dela. Ou seja, cada crente está ligado diretamente a Deus por meio de Cristo, devendo obediência final somente a Ele, por meio do Espírito Santo, que nos fala na Escritura e move nossa consciência.
O que também justifica o governo congregacional: a igreja é uma aliança de servos de Cristo, que têm, cada um, uma relação direta com o Senhor, não mediada por ninguém além do Espírito Santo. Portanto, seus trabalhos e decisões devem consultar todos os membros, que são, todos eles, reis e sacerdotes (Ap 1:6) e contam, sempre, com a presença do seu Senhor quando se reúnem (Mt 18:20).
Sobre isso a Palavra é clara: cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de TODAS as juntas, segundo a justa operação de CADA parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor Ef 4:15,16.
Ou seja, para que o corpo de Cristo cresça, cada parte, cada membro, cada crente, precisam operar, agir e atuar sobre os outros. No corpo que cresce por igual, todos edificam uns aos outros, aconselham uns aos outros, cuidam uns dos outros, servem uns aos outros e submetem-se uns aos outros.
Pois só Cristo é nosso Senhor.
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E no manto e na sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores.(Ap 19:16)
O que mais deveremos fazer ao confiar que somente por Cristo chegamos a Deus?

6 - Não devemos pregar a nós mesmos, nem as nossas experiências.
Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor (2Co 4:5).
Pregamos a Cristo, e Cristo crucificado. Mas a gente tem falado muito de nós, do que aconteceu conosco.
Porém a nossa história não é o Evangelho. Nossa experiência não salvará ninguém. Nossa história não ligará ninguém a Deus.
O Evangelho é a história de Cristo:
Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado (...) Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.(1Co 15:1,3,4)
Não que dar testemunho não seja importante, mas que no testemunho fique claro que só Cristo é nossa esperança. A obra passada de Cristo na Cruz, não os nossos exemplos e experiências atuais, é que pode salvar as pessoas.
A nossa esperança do Evangelho não está ancorada na nossa vida interior, está ancorada nos eventos históricos da Cruz e da Ressurreição.
Aquilo que aconteceu em Jerusalém a dois mil anos atrás, não o que acontece hoje na minha vida, é que traz esperança segura de salvação aos outros.


7 - Precisamos rejeitar a atual busca de poder fora de Cristo.

A mais perigosa conseqüência atual de se omitir a centralidade de Cristo é a de deturpar a obra do Espírito Santo, como se Ele fosse independente do sacrifício do Senhor e do Evangelho da Cruz, como se Ele tivesse outra coisa a fazer por nós além de nos conduzir a Cristo.
E esta deturpação tem se manifestado em doutrinas estranhas que esperam do Espírito uma assistência infinita as nossos desejos de experiências dramáticas, fantásticas, milagrosas, sobrenaturais, extremas, emocionais, catárticas, extáticas, que nos exaltem, nos elevem acima dos outros meros mortais, que dispensem a fé no invisível, que substituam a confiança na fidelidade de Deus por experiências emocionalistas de confirmação.
Assim esses evangelhos de poder, que proclamam soluções instantâneas para todos os problemas da vida, de perspectiva de bem-estar inabalável, eterno êxtase experimental, realização de sonhos materialistas, cura de todas as doenças, fim de todas as infelicidades, fim dos sofrimentos e dificuldades, vitória completa e definitiva em todas as áreas, devem ser tratados com a máxima cautela.

Esse estilo de Cristianismo simplesmente não é realista!

Fecha os olhos para a realidade. Transforma a fé numa ilusão pretensiosa. Recusa-se a carregar a cruz, e a identificar-se com Cristo no Seu sofrimento pelo Reino, e suportar a rejeição do mundo. O evangelho de poder nada tem a ver com Aquele que era manso e humilde de coração.
O evangelho de poder avança numericamente pelos meios mais sórdidos possíveis, apelando à ganância, à vaidade e enganando os sofredores e necessitados.
Tem se demonstrado grosseiramente negligente quanto ao ensino da nossa luta contínua pelo arrependimento dos pecados, da confiança no sacrifício e santidade substitutos de Cristo para sermos aceitos por Deus e do mandamento de imitar Cristo em nossa vida, na verdade, totalmente omisso quanto a estas doutrinas básicas do Cristianismo bíblico.
Nunca esqueçamos que o Evangelho bíblico não está sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada.
E isso nunca acontece se distorcemos a real missão do Espírito Santo em nós.
Pois o poder do Espírito Santo não está a serviço da nossa vaidade, curiosidade, desejos, menos ainda das pretensões de sermos admirados e elogiados pelos outros, por meio de uma religião exibicionista, nem na megalomania doentia que tem se manifestado nesses discursos triunfalistas dos evangélicos de hoje.

Sobre o Espírito Santo, Cristo disse que Ele não falará de si mesmo (Jo 16:13). O Espírito veio para falar de Cristo. O Espírito Santo tem um ministério de ‘holofote’ apontando só para Cristo. Ele mesmo aparece pouco. Pois foi Cristo que executou o plano de salvação.
Mesmo o poder do Espírito Santo sobre nós é dado com um propósito específico: nos capacitar a TESTEMUNHAR DE CRISTO – At 1:8 - recebereis poder... e sereis minhas testemunhas.
Assim, o Espírito Santo não está presente onde Ele for a figura central. Ele só está presente onde Jesus for a figura central. Esse é o Seu trabalho: tornar Cristo o centro de tudo.
O poder do Espírito Santo se manifesta na aplicação da Palavra que Cristo deixou - as palavras que eu vos disse são Espírito e vida (Jo 6:63).
O poder do Espírito Santo se manifesta no evangelho que reconcilia o homem com Deus - Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê – Rm 1:16.
O poder do Espírito Santo se manifesta na conversão e santificação dos pecadores, não na solução dos problemas da vida - o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder... e vós fostes feitos nossos imitadores, e do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo (1Ts 1:5,6).
O Espírito Santo não veio para nos tornar poderosos. Ele veio para nos converter e nos santificar. E isto requer que sejamos cada vez mais enfraquecidos e humilhados, e não que sejamos exaltados com demonstrações de poder. Lembremos que a maior demonstração de poder de Cristo foi entregar a Sua vida pelos nossos pecados.
E a demonstração do Seu poder em nós está em conformar a nossa vida à dEle: vida de renúncia, fraqueza, sacrifício e martírio pelo avanço do Reino de Deus. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo (2Co 12:9).

Portanto, NÃO DEVEMOS PROCLAMAR UM EVANGELHO DE PODER, MAS CONFIAR NO PODER DO EVANGELHO.

Pois só o Evangelho do sacrifício de Cristo pode dar sentido à vida, quando todas as nossas pretensões espirituais forem frustradas e nossos castelos de cartas caírem pela realidade dos nossos fracassos, imperfeições e instabilidades.
Quando os planos que nós, em criativa fantasia, imaginamos para Deus, e divulgamos em alta voz como se fossem revelações dEle, se mostrarem as tolas ilusões que são, o Plano Eterno da Salvação continuará sendo a última e suficiente Palavra verdadeira de Deus.
Quando falhar toda pretensão de poder, nossos projetos forem frustrados, quando a doença tirar a vida, e a falência tirar a prosperidade, a Cruz ainda permanecerá de pé. E quem confiar nela também.

domingo, 1 de junho de 2008

Somente por Cristo chegamos a Deus (2a parte)

Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens.(Jo 10:9)

O único acesso a Deus

Estamos vendo o quanto é inútil buscar purificação, conhecimento, experiências, ministérios e obras por nós mesmos. Só encontraremos condenação.
Todas as nossas justiças são como o trapo da imundícia (Is 64:6), e Deus é tão puro de olhos que não pode ver o mal (Hc 1:13), ao culpado não tem por inocente (Na 1:3), ninguém verá a Sua face e viverá (Ex 33:20). A Lei de Deus exige a perfeição que não temos.
Mas Cristo cumpriu a Lei perfeitamente na Sua vida (Hb 7:26). Os pecados dos homens exigem castigo, mas Ele recebeu esse castigo através da Sua morte na cruz, pagando o preço dos nossos pecados (1Jo 2:2). Por isso, pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, e não confiam em si mesmos (Hb 7:25).
Só por meio da aliança com Cristo recebemos a graça e a misericórdia de Deus.
Não há salvação fora de Cristo. Fora de Jesus só podemos encontrar juízo e condenação. Somente a face justa de Deus nos aparecerá.
A face salvadora de Deus só nos aparece na face de Cristo. Somente nAquela face que conhecemos a glória de Deus (2Co 4:6). Só naquela obscura cruz, e não numa visão de glória, é que somos alcançados por Deus para salvação.
E relembrando as incapacidades humanas expostas por Rm 3:10-12, vemos com alegria o quanto elas são supridas nesta aliança de fé em Cristo:
Não somos justos (Rm 3:10), mas Cristo foi justo em nosso lugar (2Co 5:21);
Não podemos entender (Rm 3:11), mas Jesus nos é revelado como Salvador (Mt 16:15-17);
Não buscamos a Deus (Rm 3:11), mas o Espírito Santo vem morar em nós (Ef 2:22);
Somos inúteis para salvar (Rm 3:12), mas basta apontarmos para Cristo (At 16:30,31).
Não fazemos o bem (Rm 3:12), mas somos justificados ao confiarmos em Cristo, sem as obras da lei (Rm 3:28).
Uma vez entrando pela única Porta, a confiança plena em Cristo com Salvador, aí sim, aquelas realidades que o homem busca pela religião (purificação, conhecimento, experiências, ministérios e obras) acontecerão em sua vida, mas da maneira ordenada por Deus, e principalmente, como fruto da nossa ligação com Cristo, único mediador.
Somos purificados não pelo nosso esforço, mas pelo sangue de Cristo.
Compreendemos as coisas de Deus pelo ensino do Espírito Santo.
Buscamos a Deus pela influência do Espírito Santo.
Não dependemos de ministros, mas Deus dá ministérios a todos para que ajudemos uns aos outros a crescerem.
Passamos a fazer o bem não para sermos salvos, mas com o único motivo de agradecer a salvação gratuita.




É isso o que disse Jesus: Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15:5).
Todas estas coisas acontecem na vida do crente não como escadas para tentarmos subir e tocar a Deus, mas como fruto espontâneo da nossa união com Cristo, nosso único mediador das coisas de Deus, o único digno de receber toda glória.
Não fomos nós que subimos a Ele. Ele é que desceu e tirou-nos do abismo.
Não nos moldamos à vontade de Deus. Ele é que nos modela pela Sua graça.
Não construímos escadas para Deus. Cristo mesmo é a única escada.


Estais perfeitos nEle (Cl 2:10)

Tendo dito estas coisas, agora podemos refletir quais serão as conseqüências para a doutrina cristã, se adotarmos firmemente como nossa verdade o princípio reformado de que somente por Cristo chegamos a Deus?

1 - Não precisamos esconder nossos defeitos e imperfeições dos outros para pregar o Evangelho.
A verdade de que SÓ CRISTO CONDUZ A DEUS nos liberta da necessidade de sermos perfeitos aos olhos do mundo.
O mundo pode e deve enxergar nossos pecados, para que saiba que o Filho do Homem veio buscar o que se havia perdido, não veio chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento; que a igreja não é um clube de santos, mas um hospital de pecadores; que nós encontramos a cura, mas ainda estamos sendo curados.

2 – Devemos manter nossa espiritualidade simples na confiança em Cristo.
Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.
Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido (Rm 10).
Esse texto afirma que a nossa vida com Deus através de Cristo e por causa de Cristo é extremamente simples. Nossa religião se resume em confiar e obedecer, tudo que passar disso é especulação humana.
Não digas em teu coração: quem subirá ao céu?
Não digas: quem trará do alto a Cristo?
A Palavra nos ordena: Não digas isso, ou seja:
Não precisamos fazer viagens ao céu. Precisamos crer no Evangelho que veio do céu.
Não precisamos de aparições de Cristo. Precisamos confiar totalmente em Cristo.
Não precisamos de experiências arrebatadoras. Precisamos negar a nós mesmos.
Não precisamos de visões. Precisamos ouvir a Palavra.
Apenas devemos crer na Palavra que está próxima de nós. Crermos em Cristo como nosso Senhor. Basta crer nEle para ter segurança. A Palavra diz que isto é suficiente.
Mas como nem sempre Cristo satisfaz nosso coração ambicioso, Paulo disse aos coríntios: temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo (2Co 11:3).

(continua)

sábado, 31 de maio de 2008

Somente por Cristo chegamos a Deus (1a parte)

Ninguém vem ao Pai, senão por mim (Jo 14:6).
Porque o nosso Deus é um fogo consumidor (Hb 12:29).


Ananias e Safira mentiram a Deus na igreja, e morreram.
Nadabe e Abiú tomaram fogo de outro lugar que não era o altar, com a intenção de oferecer um sacrifício. E morreram.
Uzá tocou na arca, com a intenção de não deixá-la cair. E morreu.
O sumo sacerdote não podia entrar no Santo dos Santos sem sangue do cordeiro.
Moisés pediu a Deus: Rogo-te que me mostres a tua glória. Mas Deus lhe disse: não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá. (Êxodo 33:20).


Isso não é porque Deus é irritável ou caprichoso.
É por que:
Ele é santo e nós somos pecadores.
Ele é puro e nós somos impuros.
Não queira ver a Deus face a face.
Não encare o juiz sem um advogado.
Não podemos subir a Deus.
Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo?Aquele que é limpo de mãos e puro de coração (Sl 24:3,4).
"Mãos limpas, coração puro. O padrão é alto demais. Isto descreve você? Não descreve a mim. (frase de Michael Horton)".
Não podemos subir a Deus. Deus teve que descer.
Não podemos ter um contato direto com Deus. Precisamos de um mediador.
Cristo é este único mediador.


Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. (1Tm 2:5)


As escadas quebradas da religião


Nós, seres humanos, sabemos que estamos distantes de Deus.
Para solucionar isso, o ser humano sempre tem criado caminhos religiosos que o façam aceito por Deus, ou pelo menos preencham o vazio que existe dentro dele, “do tamanho de Deus”[1].
Ele tenta chegar até Deus por diversos meios que sua imaginação sugere.
As pessoas costumam tentar se salvar:

- Pela purificação: santificando a si mesmo, pela força de leis e regras que o impediriam de se contaminar;

- Pelo conhecimento: pela investigação dos mistérios ou verdades ocultas que lhe abririam privilégios negados aos ignorantes;

- Pelas experiências: pelas orações, cultos, rituais, cerimônias, eventos sobrenaturais ou inexplicáveis, que lhe dêem contato direto com a divindade;

- Por meio de ministros: ligando-se a igrejas, instituições, pastores, sacerdotes, líderes, pessoas mais santas que ele, que já se ligaram a Deus e que por tabela o ligariam também;

- Por meio de obras: exercendo piedade, bondade, misericórdia, generosidade, ou fazendo sacrifícios e ofertas de tal forma que agrademos a Deus e Ele nos salve por causa disso.

Mas, poderiam estas pretensões humanas permanecerem de pé diante da santidade puríssima e justiça perfeita de Deus?

Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o SENHOR, e como um martelo que esmiúça a pedra (Jr 23:29)?
Pois o texto de Rm 3:10-12 quebra uma a uma estas escadas que pretendiam ligar o homem a Deus, declarando-as totalmente incapazes de redimir alguém:
"Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. "

Subir estas escadas sem o Mediador ordenado por Deus é um fazer um esforço tremendo apenas para ser reprovado no final.
Ninguém atinge o nível suficiente para merecer a comunhão com Deus.
Deus não pode ser conquistado.






Muitos podem observar uma lista de proibições e tentar evitar o pecado e o mal, mas ainda assim não há um justo, nem um sequer (Rm 3:10).
Muitos podem pesquisar e conhecer as doutrinas bíblicas, mas ainda assim não há ninguém que entenda (Rm 3:11).
Muitos podem participar de cultos, orações, jejuns, vigílias, propósitos, campanhas, cerimônias e tradições, mas ainda assim não há ninguém que busque a Deus (Rm 3:11).
Muitos podem esperar serem salvos pela intercessão e orientação de algum santo servo de Deus, ou de alguma santa igreja de Deus, mas ainda assim todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis (Rm 3:12), não servem para salvar.
Muitos podem ajudar o próximo, serem honestos, bons cidadãos, seguirem os mandamentos bíblicos ou a cultura evangélica, mas não há quem faça o bem, não há nem um só (Rm 3:12).
A verdadeira religião cristã é conseqüência da salvação, jamais a causa da salvação. Só podemos nos aproximar de Deus e sermos salvos pelo caminho que Ele ordenou.

(continua)












[1] Frase de Agostinho.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Somente a Escritura é autoridade infalível

 Para que aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra o outro. (1Co 4:6).Em abril de 1521, o “santo imperador romano”, Carlos V foi à pequena cidade de Worms, na Alemanha, onde ele havia convocado uma assembléia imperial. Lá em Worms, estavam unidos os bispos, arcebispo, príncipes do Império, representantes das cidades livres e bem no alto, acima de todos esta o augusto Carlos V, Rei da Espanha e ‘santo imperador de Roma’.
Diante daquela assembléia imponente está o humilde monge agostiniano, Martinho Lutero, vestido com seu capuz de monge, de pé diante de uma mesa onde estavam folhetos, tratados escritos e publicados por ele. Johaun Von Eck, assistente do Arcebispo de Trier, que serviu como interrogador, mandou Lutero reconhecer o material como sendo seu mesmo, e Lutero assumiu a autoria de todo o material. Eck também perguntou se o teólogo iria se retratar das “heresias” que havia publicado. Percebendo a importância da sua postura, Lutero pediu um tempo para escrever uma resposta formal. Foram-lhe concedidas 24 horas para preparar a sua resposta e no dia seguinte ele estava diante da Assembléia e pronunciou o discurso que mudou o curso da História e modificou a Igreja para sempre. O mundo e a Igreja jamais voltaram a ser os mesmo depois que Lutero fez a sua declaração arrebatadora.
Um simples monge e um teólogo obscuro, sem fortuna ou poder, Lutero ficou diante dos governantes da Alemanha e disse: “Desde que vossa serena majestade e vossas senhorias buscam uma resposta simples, eu a darei assim, sem chifres nem dentes. A menos que seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por mera razão (pois não confio nem no papa nem nos concílios somente, pois é bem sabido que eles freqüentemente erram e se contradizem), eu estou atado pelas Escrituras que já citei, e a minha consciência é escrava da Palavra de Deus. Eu não posso e não irei me retratar de nada, já que não é seguro nem correto agir contra a consciência”.
Lutero talvez estivesse ali tremendo, pois ele sabia que havia arriscado sua vida por Jesus Cristo. Outros que haviam tomado este tipo de atitude antes de Lutero haviam sido queimados como traidores. De fato, o reformador John Hus havia sido queimado por ordem do Concílio de Constança 100 anos antes, e entre os crimes que o levaram a morte, foi ter protestado contra a venda de indulgências [perdão de pecados dos mortos]!
Ao defender o seu ponto de vista diante daquela Assembléia, Lutero sabia que a sua vida corria um grande risco. O imperador, em favor de Lutero, manteve a sua palavra de que Lutero poderia ir até Worms e sair de lá em segurança, mas a partir daquele momento seria considerado herege diante da Igreja e um fora-da-lei aos olhos do imperador. Lutero havia proclamado o princípio que estava destinado a ecoar através dos tempos, o princípio de SOLA SCRIPTURA. Aqueles que acreditam como ele, ainda defendem só as Escrituras e, como Lutero, as suas consciências estão ‘presas à Palavra de Deus’.”[1]

Deus fala hoje? A resposta dos reformadores deram é que o Espírito Santo fala à igreja de hoje, mas apenas para explicar e aplicar a revelação que já foi feita. Havendo Deus antigamente falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais; pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias pelo Filho (Hb 1:1). A doutrina reformada tem pregado que a revelação essencial de Deus é a pessoa de Cristo. Foi isto que Pedro e Paulo receberam (Mt 16:16,17; Gl 1:15,16) e que cada um de nós recebe ao crer nEle como Salvador. A revelação de Deus é completa em Cristo, nosso entendimento é que é incompleto.
Portanto o trabalho do Espírito Santo em nós é de reafirmação da mensagem do Evangelho: o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto tenho dito (Jo 14:26). É um esclarecimento, uma iluminação para a nossa mente e aplicação relevante para a nossa vida. Estas iluminações podem até serem novas para nós, que estamos entendendo, mas não serão inéditas. Deus nada tem a nos dizer que já não tenha dito através de Cristo e registrado na Bíblia.
Ao crer desta forma, vemos a Bíblia como o suficiente registro da Revelação, nada devendo ser acrescentado a ela. E esta é a essência do SOLA SCRIPTURA: que a Bíblia seja considerada suficiente. Porque se a Bíblia for suficiente, as outras revelações são desnecessárias. Mas se cremos em outras revelações, estamos declarando que a Bíblia não é suficiente.
Os reformadores enfatizavam bastante a ligação do Espírito Santo com a Bíblia. Esta, sendo inspirada por Deus, ocupa a cadeira de juíza de todas as opiniões humanas, mesmo as opiniões da Igreja. SOLA SCRIPTURA não nega o valor de tradições, declarações doutrinárias e discernimentos particulares ou coletivos. Mas recusa-se a considerar como palavra vinda de Deus aquilo que não for essencialmente bíblico.
Rejeitar o que a Bíblia ensina para abraçar outros ensinos fora dela, em matéria de fé e prática cristã, é rejeitar o próprio Espírito Santo que inspirou a Bíblia. Não podemos reivindicar que o Espírito Santo em momento algum vá contra a Sua Palavra, ou nos oriente a ignorá-la. “As palavras da Escritura devem ser consideradas palavras do Espírito Santo”[2].
A igreja de Cristo não faz leis ou mandamentos à parte da Palavra de Deus; portanto, não estamos sujeitos às tradições humanas, exceto na medida em que fundamentam-se ou encontram-se prescritas na Palavra de Deus”[3]. Qualquer opinião humana, na forma de conselho, pregação, doutrina ou tradição da igreja, naquilo que não for bíblico, permanece sendo apenas isso: uma opinião, que podemos aceitar ou não. Já tudo aquilo que for verdadeiramente bíblico é a vontade de Deus revelada, à qual nos cabe obedecer.
Bem diferente dos princípios reformados, os católicos, adventistas, mórmons e testemunhas de Jeová são grupos que crêem que Deus faz novas revelações hoje. Estes grupos estabeleceram o conteúdo destas revelações e as colocam no mesmo nível da Bíblia para se guiarem. Seja com novos livros inspirados (mórmons e adventistas), seja pela orientação dos governantes (testemunhas de Jeová) ou por um conjunto de instrumentos tais como tradições orais, concílios, dogmas e orientações infalíveis do papa (católicos), eles tratam as suas revelações como tratam a Bíblia, como novas palavras infalíveis de Deus. Para um membro destes grupos não importa muito questionarmos que alguma de suas doutrinas não tenha base bíblica, pois eles assumem que não se baseiam somente na Bíblia.
Outra posição diferente da reformada é a dos pentecostais. Estes crêem que Deus continua falando novas coisas, e tem revelações diretas a dar aos crentes e às igrejas. Porém os pentecostais em geral não registram estas novas revelações para a posteridade, e não consideram que essas revelações deveriam ter as mesmas características das palavras bíblicas: falar com autoridade, universalidade, infalibilidade e eternidade. Os pentecostais crêem que Deus continua falando, mas de forma um tanto insegura, em “revelações” que podem ou não ser verdadeiras, não são eternas, nem universais. Caem eles em “outro problema: (...) considerar que, ora Deus fala como Deus (nas Escrituras), e ora ele fala como homem (revelação moderna). Ou seja, Deus falou inspiradamente quando tratava-se das Escrituras Sagradas, mas agora Ele fala aos seus filhos como qualquer outro homem, sem inspiração, de maneira errante e falível”[4].
Ainda outro problema da posição pentecostal é que geralmente as suas revelações não são públicas. Não há muito diálogo das revelações pentecostais com o mundo, com os incrédulos, nem com as outras denominações cristãs. São coisas particulares sobre a vida de um irmão ou igreja, geralmente pentecostal também. Os profetas bíblicos, ao contrário, falavam em público para todos, com toda a certeza e sem medo, pois tinham uma palavra infalível da parte de Deus. Expunham-se tranquilamente ao teste de que “se tal palavra não se cumprir, esta é a palavra que o Senhor não falou (Dt 18:22)”.
Toda a palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nEle. Nada acrescentes às Suas palavras, para que não te repreendas e sejas achado mentiroso (Pv 30:5,6).
Que a Bíblia é a Palavra de Deus, praticamente todos os cristãos concordam. Mas que a Bíblia seria a única autoridade infalível para a igreja, esta é uma peculiaridade dos que abraçaram o princípio SOLA SCRIPTURA da Reforma.
Diante dos erros do catolicismo medieval, os reformadores da igreja não tiveram outra alternativa a não ser confiar somente na Escritura como autoridade final. Eles tiveram a convicção de que a fonte da maioria dos erros de doutrina e prática da Igreja Católica eram as outras autoridades (tradições, concílios, visões, revelações, decisões dos papas, etc.) que foram colocadas no mesmo nível da Bíblia. A causa da Igreja Católica ter se desviado tanto, diriam, foi justamente confiar em outras coisas além da Bíblia. E o único meio de se corrigirem tais erros sem controle era guiar-se pela Bíblia acima de tudo.
De fato, desde que o bispo de cada igreja foi considerado como tendo a palavra final para os crentes, e os concílios para a Igreja inteira, o que aconteceu foi uma espiral de desvios que até hoje vão se acumulando uns sobre os outros. Podemos citar “a oração pelos mortos (no ano 310 D.C.), a instituição da missa substituindo o culto (394), o culto a Maria (431), a invenção do purgatório (503), a veneração de imagens (783), a canonização dos santos (933), o celibato clerical (1074), o perdão através da venda de indulgências (1190), a hóstia substituindo a Ceia (1200), a adoração da hóstia (1208), a transubstanciação (1215), a confissão auricular (1216), os livros apócrifos como parte do cânon (1546), o dogma da Imaculada Conceição de Maria (1854) e o dogma da Assunção de Maria (1950), infalibilidade papal, dentre outros.[5]
E hoje, de forma alarmante, outro turbilhão de desvios e novidades estranhas tem assolado a igreja, desta vez no ramo evangélico, se desenvolvendo, talvez não por coincidência, após o Movimento Pentecostal (1901) ter negado conscientemente o princípio protestante de somente a Escritura, para afirmar que Deus estava através deles restaurando os dons miraculosos de visões e revelações dos tempos apostólicos.
De lá para cá que ênfases novas temos visto (para os evangélicos)? Falar “em línguas” (ano de 1901), batismo do Espírito Santo como degrau para uma vida cristã superior (1901), revelações e previsões (1901), ministérios de cura e exorcismo (1950), unção com óleo (1950), teologia da prosperidade (1970), manipular serpentes, sopro do Espírito, cair no Espírito, dançar no Espírito, dentes de ouro, copo com água abençoada, rosa ungida, distribuição de objetos ‘abençoadores’ (década de 80), batalha espiritual (moldada por uma obra de ficção, o livro “Este mundo tenebroso”, de 1986), cura interior, confissão positiva, maldição hereditária, entrevista de demônios, cura de carros, aparições de Cristo, encenação espiritual, viagem celestial, unção do riso, vômito santo (década de 90), adoração profética, ato profético, dança profética, consulta a espíritos sobre o nome das potestades territoriais, mapeamento espiritual, exorcismo da cidade, declarações proféticas de bairros e cidades como “sendo de Jesus”, emagrecimento milagroso, levitação, unção do leão, unção da lagartixa (século XXI), e por aí vai. Não há limite, porque o limite da Escritura foi ignorado (contrariando 1Co 4:6). Se uma igreja não crê só na Escritura como fonte de doutrina, tudo se torna válido.
Individualmente, também, muitos crentes de hoje além de crerem na Bíblia, estão fabricando suas próprias “bíblias mentais” como fonte de doutrina, em acréscimo à Escritura. Mas a nossa consciência não é Palavra de Deus. Nossa imaginação não é Palavra de Deus. Nossa intuição não é Palavra de Deus. Nossas idéias não são Palavra de Deus. Nossos desejos não são Palavra de Deus. Nossos palpites não são Palavra de Deus. Nossos projetos não são Palavra de Deus. Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos que os vossos pensamentos (Is 55:8,9).
Por isto podemos desconfiar que haja muito de precipitação e ingenuidade quando alguns crentes de hoje dizem: “Deus diz, Deus quer, Deus pensa, Deus está falando”, se eles estiverem com isso projetando seus desejos e imaginações. Erradamente têm se entendido que ter a mente de Cristo (1Co 2:16) seria automaticamente pensar sempre como Cristo pensa, como se tivéssemos entrado nos pensamentos de Deus, só porque fomos salvos da condenação. Este texto (1Co 2:16) apenas compara a sabedoria do Evangelho com a sabedoria do mundo.
O fato do Espírito Santo estar em nós não nos tornou automaticamente infalíveis. Se assim fosse, teríamos que considerar a Bíblia desnecessária. E justamente a necessidade, grandeza e especialidade da Bíblia é ser a Palavra de Deus totalmente confiável para nós. Não podemos confiar em nosso próprio coração, ele é demasiadamente enganoso e desesperadamente corrupto (Jr 17:9).
Portanto a Escritura Sagrada torna-se indispensável “para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo[6]”.
Assim entendemos que ao seguirmos o princípio reformado de que SOMENTE A ESCRITURA É AUTORIDADE INFALÍVEL:
1 - Afirmamos que o sentido da Bíblia, nas suas coisas essenciais, é acessível a todo crente. Atualmente a Bíblia, tal como nos tempos medievais, foi tirada do povo. E isto aconteceu não só pela volta do misticismo, mas também pelo racionalismo: através da complicação da mensagem e do sentido da Bíblia. Os seminários e faculdades teológicas, com estudos detalhistas, tornaram o sentido da Bíblia virtualmente inacessível, uma vez que fizeram crer que só através de um estudo detalhado de grego, hebraico, antropologia, sociologia, história, arqueologia, filosofia, etc, se pode chegar ao seu sentido.
A solução para reverter esse quadro não é simplesmente afirmar de forma geral que o Espírito Santo guia o crente, mas também reconhecer que a mensagem da Bíblia é simples (Rm 10:8,9) e a chave da sua interpretação é Cristo (Lc 24:25-27). Se lembrarmos simplesmente de Cristo e dEle crucificado (1Co 2:2), já saberemos o suficiente para entender a mensagem da Bíblia.
Porque este mandamento, que hoje te ordeno, te não é encoberto e tampouco está longe de ti... porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a fazeres (Dt 30:11,14). As coisas encobertas são para o Senhor, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei (Dt 29:29).
Cremos assim que tudo que Deus julgou relevante sabermos está suficientemente claro na Bíblia para os que a lerem ou ouvirem. Mais ainda: quanto mais necessária, mais clara será a informação na Bíblia, e as informações menos claras são as menos necessárias. Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela (Dt 4:2).

2 - Confiamos realmente em tudo que a Bíblia diz de si mesma. A Bíblia se diz viva e eficaz (Hb 4:12). Estar insatisfeito com a Bíblia é negar que ela seja viva e eficaz.
Ela se diz apta para discernir (Hb 4:12). Buscar discernimento sem ela é como dizer que ela seria incapaz de fazer isso em nós.
Reinvidica ter sido produzida pelo Espírito Santo (2Pe 1:19-21). Crer que o Espírito Santo vá trabalhar em nós sem ela, é tornar todo este trabalho de Deus sem sentido. O mesmo Espírito Santo que falou pelos profetas, nos chama nessa passagem para atentarmos para a Sua Escritura até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em nossos corações. Se tivermos comunhão com Ele obedeceremos a este chamado.
A Escritura se considera divinamente inspirada (2Tm 4:16). Pedir a Deus que nos fale fora da Palavra é fechar a carta que Ele nos escreveu, sem entendê-la toda. Se escrevêssemos detalhadamente instruções a alguém, não gostaríamos que este nos telefonasse a todo momento para nos perguntar tudo que já respondemos na instrução.
A Escritura se considera proveitosa para que sejamos perfeitos e perfeitamente instruídos (2Tm 4:16). Sendo assim, seria ela incompleta? Ineficiente? Incapaz? Precisaríamos de outra fonte para aprender? Precisaríamos de outra fonte para praticar? Precisaríamos de outra fonte para decidir?
A Palavra se diz a espada do Espírito (Ef 6:17). Quem somos nós para sugerir ou dar ao Espírito Santo outro instrumento para o Seu trabalho?
3 - Afirmamos que a Palavra de Deus é suficiente para nos mostrar a vontade de Deus. Paulo, se dirigindo aos judeus, disse: “sabes a Sua vontade, (...) sendo instruído por lei” (Rm 2:18). Ele estava se referindo às Escrituras. A Bíblia dos judeus, segundo Paulo, era suficiente para saber a vontade de Deus.
Negamos assim que uma experiência mística, sentimental ou imaginativa fora da Palavra seja uma fonte confiável para descobrir a vontade de Deus para a nossa vida. O que confia no próprio coração é um insensato (Pv 28:26).
Na verdade, o que dará real segurança ao crente de estar dentro da vontade de Deus é conhecer a Palavra, pois isto é que ensinará a nossa consciência a aplicar a vontade de Deus às nossas vidas, a cada momento. Escondi a Tua Palavra no meu coração, para eu não pecar contra Ti (Sl 119:11).
“Fiz uma aliança com Deus: que não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida como para a que há de vir”[7].
Magnificaste acima de tudo o Teu nome e a Tua palavra (Sl 138:1,2).

4 - Afirmamos que a Bíblia tendo origem divina e não humana, costuma contradizer nossas obras e pensamentos, que são humanos e não divinos. É digno de atenção o fato de que os resultados costumam ser diferentes ao buscarmos a vontade de Deus fora da Bíblia ou através dela.
Quando buscamos a Deus fora da Bíblia, geralmente encontramos um Deus muito parecido conosco, que pensa como nós, que nos elogia, que serve à nossa vontade, confirma o que fazemos, autoriza o que queremos, que apenas repete o que já sabemos, justifica todos os costumes e tradições, diviniza nossa cultura, assina embaixo de nossos pressupostos, dá continuidade a nossos preconceitos e aprova erros doutrinários, o Deus fora da Bíblia se conforma a nós e fala ao nosso favor.
Porém quando buscamos a vontade de Deus pela Bíblia, geralmente encontramos um Deus muito diferente de nós, que não pensa igual a nós, um Deus que confronta nossos inúmeros pecados e falhas, que contradiz a nossa vontade, que contesta nossos planos, que denuncia nossas segundas intenções, que nos ordena dar meia volta em nosso caminho, que nega os projetos construídos sobre falso fundamento, que tira nossas máscaras, que nos ordena contestação, renovação, revolução e reinvenção de nossos projetos e nossa própria pessoa. O Deus da Bíblia é transformador, vai de encontro a nós e fala contra nós para o nosso bem.
O Deus revelado pela mente costuma dar álibis, pretextos e confirmações, o Deus revelado pela Bíblia costuma confrontar, desafiar e quebrantar. Qual seria o Deus verdadeiro?

Santifica-os na verdade, a Tua Palavra é a verdade (Jo 17:17).
Se você tivesse que atravessar um matagal de noite, no escuro, uma travessia prevista de duas horas, e fosse um amigo contigo, e este dissesse: “tá aqui as pilhas para a lanterna, só que eu não sei o quanto estas vão durar, são usadas”.
Você não se preocuparia com razão? Certamente você diria algo como “vamos ver se a gente arranja alguma pilha nova, que nos garanta as duas horas de travessia, pois não temos segurança nessas pilhas”...
Imagine também que você pede a um amigo: “preciso que você faça para mim um orçamento deste produto, até a semana que vem, para que eu possa separar o dinheiro”. E ele chegasse na outra semana e te respondesse: “olha, no dia seguinte ao que você me pediu esse orçamento, eu sonhei que o preço é R$ 10,00; e também eu ouvi falar que o preço pode variar entre R$ 10,00 e R$ 1.000,00, mas o que eu sinto no meu coração é que o preço é R$ 10,00 mesmo”...
Em um mesmo dia saltamos da euforia para a depressão. Em um mesmo dia, rimos e choramos. Em um mesmo dia, sentimos paz e desespero.
É possível construir alguma casa sobre areia movediça? É prudente investir dinheiro em bilhetes de loteria?
Confiar nas nossas experiências, impressões, especulações e sensações, crendo que sejam orientações de Deus é confiar no que há de mais inconstante, incoerente, incerto e inseguro. Porque estamos falando de coisas que variam o tempo todo.
Buscar Deus nesse mar revolto que é o nosso coração é considerar que Deus seja inconstante como nós. Como se Ele fosse um daqueles deuses caprichosos da mitologia grega, que brincavam com os seres humanos de acordo com o seu humor do dia.
De que valeu o “trabalho” do seu amigo? Serviu para quem precisa separar o dinheiro exato para a compra? Comparando-se o “esforço” do seu amigo com as experiências místicas que nos acontecem aleatoriamente, dando certeza de pouca coisa ou nenhuma; o ato de consultar a Palavra de Deus com oração e fé seria como se o amigo tivesse consultado a tabela oficial de preços da loja, com o preço exato, incluindo os centavos, prazo de entrega e as formas de pagamento.
Da mesma maneira, quando o misticismo é colocado como outra bússola de Deus pra nós, além da Bíblia, estamos dispensando as pilhas novas e confiáveis, por pilhas usadas, que não sabemos quando irão falhar.
O Espírito Santo é o Autor da Bíblia. A opinião da Bíblia é a opinião do Espírito Santo. Se quisermos saber a vontade do Espírito Santo, cabe-nos atentar para a carta que Ele escreveu para nós.
Porque queremos outras orientações se ainda não entendemos e muito menos praticamos a primeira orientação?
Eis o que o Espírito Santo disse sobre o coração humano:
O que confia no seu próprio coração é insensato (Pv 28:26).
Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? (Jr 17:9). Nunca é demais repetir, o nosso coração é a coisa mais perversa e enganosa do mundo!
Do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem. (Mc 7:21-23). E no entanto o que mais se ouve é o conselho de consultarmos nosso coração...
Não esqueçamos que apesar de salvos ainda somos pecadores; apesar de convertidos ainda não temos um coração perfeitamente santo, ainda somos enganados pelo pecado dentro de nós (leia Tg 1:14), e isso atrapalha tudo.
Em contraste, eis a opinião do Espírito Santo falando na Bíblia sobre ela mesma: o caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; é um escudo para todos os que nele confiam (Sl 18:30).

Ou seja, nós:

5 – Relativizamos o valor das experiências incertas, uma vez que temos a certeza da Palavra.A Palavra de Deus é imutável. A Palavra de Deus é perfeita. Ela é digna de representar a vontade de Deus para nós.
Nossas sensações e impressões são inconstantes e imperfeitas. Por isso são indignas de representar a vontade de Deus para nós.

6 – Afirmamos que crer somente na Escritura não é mero tradicionalismo.Até porque a Reforma é que ao seu tempo foi acusada de desvalorizar a tradição católica, ao proclamar que só a Palavra é autoridade infalível.
Hoje a situação se inverteu, com o pentecostalismo acusando as igrejas herdeiras da Reforma de seguirem demasiadamente suas tradições e desvalorizar “novas experiências com Deus”.
Não, o que a Reforma quer é seguir a Bíblia acima das tradições, o pentecostalismo é que olhou para trás, depois de pegar no arado, e adotou uma tradição católica, aquela de não considerar a Bíblia como única fonte divina de doutrina e prática.
Ou seja, quem está sendo tradicionalista são os pentecostais, ao defenderem essa tradição católica de não considerar a Bíblia suficiente.
Certamente que a Bíblia é uma tradição, mas é a pura, perfeita, eterna e infalível tradição do Espírito Santo, nossa única vacina contra as corrupções humanas da mensagem do Evangelho.

7– Afirmamos que a Revelação de Deus é igual para todo o povo de Deus. Cristo é a Revelação de Deus (Hb 1:2), a Bíblia é o registro dessa Revelação, o Espírito Santo é o Escritor deste registro. O crente recebe o Espírito Santo para lhe aplicar a Revelação de Deus em Cristo, pela Palavra registrada, para o fazer cumpri-la em sua vida.
Será que certos crentes e igrejas pensam ter recebido uma parte maior de Cristo? Uma parte maior da Revelação? Uma parte maior do Espírito Santo? Então Deus faz acepção de pessoas, na verdade?
Numa igreja guiada por experiências, tudo funciona muito bem, até o dia em que o “‘meu’ Espírito Santo” discorda do “‘seu’ Espírito Santo”. O que a gente faz nessa hora?
Pois o fato dos crentes discordarem entre si é a prova da humanidade das suas opiniões.
Afinal, se o Espírito Santo tem apenas uma opinião, como podemos nós discordar, tendo todos o mesmo Espírito Santo? Há somente um corpo e um Espírito... há um só Senhor, uma só fé (Ef 4:4,5).
Poderíamos nos compararmos uns com os outros pra ver quem tem mais intimidade com Deus, mas uma solução melhor bem pode ser a de concordarmos que a opinião do Espírito Santo já está registrada para sempre na Bíblia.
Nós mudamos o tempo todo. A Palavra nunca muda.
Crer no Sola scriptura nos ajudará a destruir o castelo de areia de alguém que acaso queira se considerar mais espiritual que os outros. O Espírito Santo é o mesmo para todos, e a Palavra igual para todos é que prova isso[8].

8 – Afirmamos que toda mensagem que não seja bíblica é apenas uma opinião. Por isso não nos impõe uma obediência absoluta, porque não tem a autoridade de Deus.
A autoridade de Deus é a única que requer nossa obediência absoluta: importa mais obedecer a Deus do que aos homens (At 5:29). A autoridade de Deus está ligada à mensagem registrada na Palavra. O resto é opinião humana. Nunca terá garantia absoluta.
Deus só garante e ordena o que a Palavra diz. Nada fora da Palavra tem a garantia de Deus e nada fora da Palavra tem a autoridade de Deus.
Qualquer crente ou grupo de crentes é falível em tudo que disser fora da Bíblia. Assim todo resumo doutrinário, toda igreja, toda tradição, todo costume, toda convicção, crença, conselho, experiência, tudo que for além da Bíblia pode ter falhas e ser incorreto.
A proclamação desta imperfeição das opiniões humanas é especialmente importante neste tempo em que a igreja evangélica regrediu, e negou a Reforma, quando passou a considerar seus líderes como mediadores da vontade de Deus. Esta é uma grosseira negação do princípio reformado do SOLA SCRIPTURA.
Um autor anabatista explica: “(...) no Brasil a palavra do pastor tende a ser vista como a palavra de Deus. Da perspectiva anabatista diremos que a palavra do pastor é apenas uma palavra, palavra a ser testada e analisada, a ser discernida por irmãos e irmãs atentos. A palavra que vem do púlpito nunca pode ser aceita cegamente. Ela pode tornar-se palavra de Deus na proporção em que a comunidade ouve e o Espírito Santo confirma esta palavra.
A igreja evangélica brasileira tende a valorizar e absolutizar de um modo irresponsável a palavra que vem do púlpito e os membros tendem a engolir sem contestar o que foi dito pelo “homem de Deus”.
Politicamente o brasileiro vai na conversa daquele que fala mais bonito e de modo mais empolgante e assim também nas igrejas tendemos a nos extasiar com oradores que nos empolguem, que despertem nossas emoções e esquecemos de conferir se a palavra falada tem base na Bíblia[9]”.
Aqui um católico diria: “Deus inspira nossa igreja para que tenha uma interpretação infalível”.
Mas quem adota o princípio protestante de que somente a Escritura é autoridade infalível, não pode escapar por este argumento. Só lhe resta ter uma interpretação humilde e aberta à revisão, pois a última palavra não será de nenhum crente, igreja, concílio ou credo, mas da Escritura.
“Um simples cristão com a Bíblia na mão pode dizer que a maioria está errada”[10].


9 - Negamos que alguém possa falar em nome de Deus algo que não seja essencialmente bíblico.Assim como Cristo é a imagem do Pai, a Bíblia é a imagem do Espírito Santo, que manifestou perfeitamente nela os Seus santos pensamentos, ao inspirá-la (2Tm 4:16). E mais, aprouve ao Senhor Espírito Santo ser reconhecido por Sua imagem impressa na Escritura, que é assim não apenas mensagem, mas também confirmação da obra dEle em nós.
O Filho é o mediador do Pai, o Espírito Santo é o mediador do Filho, a Palavra é a revelação do Espírito Santo.
A vontade do Espírito Santo já foi manifestada para nós na Palavra. O fato dela não mudar não deve nos causar temor já que o Espírito Santo, Deus, é eternamente estável. A Palavra vai durar para sempre. O Espírito Santo não vai mudar de opinião. A opinião do Espírito Santo já está disponível para nós.
Em 2Co 3:8, “o Apóstolo chama sua pregação de ministério do Espírito, significando, sem dúvida, que o Espírito Santo de tal modo se [junta] à Sua verdade que expressou nas Escrituras, que manifesta e patenteia Seu poder, então, afinal, onde se rende à Palavra a devida reverência e dignidade. (...) O Senhor ligou entre si, como que por mútuo nexo, a certeza da Sua Palavra e [a certeza de Seu] Espírito”[11].
Isto de tal forma que amamos a Palavra quando o Espírito Santo atua em nós, e abraçamos o Espírito Santo “quando O reconhecemos na Sua imagem, isto é, na Palavra”[12].
Essa convicção dos reformadores não era um ataque gratuito (ou invejoso) ao misticismo, mas uma certeza sentida na pele, por observarem que quase todos os erros do catolicismo se originaram das “revelações” fora da Bíblia. E isso acontecia também entre os próprios reformadores.

Por exemplo, no tempo de Lutero, certo grupo de camponeses anabatistas começou uma onda de depredações e violência alegando terem sido orientados pelo Espírito Santo. E uma vez que Deus fale fora da Bíblia, quem poderia lhes dizer que estavam errados, se eles “sentiram” que isso foi ordem de Deus? Se Deus ordenou a violência, tinham mais que obedecer mesmo: Deus é soberano, não é?
Mas como saber se Deus ordenou ou não? Pela Bíblia? Ora, se a Bíblia é o juiz final de tudo, porque não ficar logo apenas com ela? Se o que vale é o que está escrito, porque se guiar por qualquer outra coisa? Se temos acesso à Bíblia perfeita, porque se agarrar às coisas imperfeitas? Se temos a infalível para que antentar para a falível? Se temos a certeza da Palavra, para quê dar ouvidos à dúvida das experiências?
Ou ainda, que bem faz a dúvida? Como o evento duvidoso pode edificar? Como o incerto pode consolar? Como o obscuro pode ensinar? A força da carne pode fazer o trabalho do Espírito Santo?

“Que dirão a estas coisas estes (...) entusiastas que reputam (...) sublime iluminação quando, dando despreocupadamente de mão e dizendo adeus à Divina Palavra, não menos confiantes que temerários, agarram sôfregos qualquer coisa que hajam concebido enquanto a roncar?[13]
“Aos filhos de Deus, por certo, sobriedade bem outra [lhes] convém, os quais, ao mesmo tempo que, sem o Espírito de Deus, se vêem privados de toda luz da verdade, todavia, não ignoram que é a Palavra o instrumento pelo qual o Senhor dispensa aos fiéis a iluminação do Seu Espírito. Pois não conhecem outro Espírito que [Aquele] que habitou e falou nos Apóstolos, de cujos oráculos são continuamente convocados a ouvir a Palavra”[14].

O Espírito Santo falando na Palavra aponta sempre para a Palavra como o meio designado para conhecermos Sua vontade. O Espírito Santo não nos chama para fora da Palavra, afim de contar segredos ao nosso ouvido. Ou acaso existe uma tal passagem bíblica em que o Espírito Santo nos ensine a buscar a Deus fora da Palavra?

Reafirmamos que todo aquele que for edificado pela Palavra só o pode ser por causa da obra miraculosa do Espírito Santo em seu coração.

Por outro lado, realmente existe um certo tipo de conhecimento bíblico inútil, se este é meramente acumulado sem a operação do Espírito Santo e a obediência a Ele. Causa escândalo a todos ver muitos que conhecem, mas não praticam. Mas esses não-praticantes não invalidam a relação que existe entre Bíblia e Espírito Santo.
Jesus disse claramente que o entender das coisas de Deus está reservado somente àqueles que estão dispostos a obedecer (Jo 7:17). Quem conhece, mas não pratica, sofrerá o mais rigoroso juízo (Mt 23:3,14). Na verdade arrisca-se a colher em vida o estudo inútil da Bíblia como recompensa de sua desobediência, tal como aqueles que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade (2Tm 3:7).
O fato do conhecimento bíblico não produzir fruto neles é causado por eles resistirem ao Espírito Santo quando são chamados por Ele nas oportunidades de praticar a Palavra. Essa desobediência entristece o Espírito Santo e contraria a Sua influência. E sem Ele, a Bíblia torna-se um livro fechado.

Resumindo:

a) Se buscarmos o Espírito Santo sem a Palavra nos expomos ao engano do nosso próprio coração pecador.

b) Se buscarmos a Palavra sem o Espírito Santo obtemos só informação, não transformação.

NÃO devemos fazer uma coisa nem outra. E NEM precisamos escolher entre atentar para a Palavra ou atentar para o Espírito Santo.

Devemos na verdade buscar o Espírito Santo na Palavra, porque é este o local designado por Ele para O encontrarmos. Temos que estar sempre suplicando que o Espírito Santo venha com poder sobre a Sua Palavra, afim de sermos transformados por Ele, por meio dela.

Servimos a Deus pelo Espírito e pela Verdade, não só por um ou só por outro, mas pelos dois juntos (Jo 4:23,24).

A Palavra já é o que o Espírito Santo sempre quis nos dizer. Sua obra não é nos dar novas Palavras, mas nos fazer entender e praticar a Palavra dada por Ele mesmo. Se o Espírito Santo nos falar qualquer coisa será exclusivamente com o objetivo de entendermos e praticarmos a Palavra (cujo sentido é Cristo).
“Não é função do Espírito [que] nos [foi] prometido, configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante quê sejamos detraídos do ensino do Evangelho [já] recebido; ao contrário, [Sua função é] selar-nos na mente aquela própria doutrina que é recomendada através do Evangelho”[15].

O Espírito Santo não tem porque complementar a fé (doutrina) dada uma vez por todas (Jd 3), se nem bem começamos a entendê-la e muito menos praticá-la.
E se acaso Deus falasse diretamente com alguém hoje, deveríamos anotar essas palavras e divulgá-las como novos textos bíblicos.
Por que a Palavra de Deus no passado era tão importante a ponto de ser divulgada a todos os povos, e hoje as novas palavras de Deus podem cair no esquecimento? Pois desde o ano 96 dC nenhum livro foi acrescentado na Escritura!!! A nossa Bíblia ainda acaba em Apocalipse!!!
Mudou a autoridade de Deus? Mudou a importância da opinião de Deus? Mudou a perfeição da Palavra de Deus? Mudou a eternidade da Palavra de Deus? Mudou a universalidade da Palavra de Deus?
Ou mudaram os crentes, que passaram a ser mais pretensiosos para sem temor tomar o nome de Deus em vão? E passaram a crer numa religião de “achismos”? Que expõe o nome de Deus a ser ridicularizado pelos milhares de palpites errados ditos em nome de Deus?

A orientação bíblica é a orientação clara e certa do Espírito Santo. Por isso que o Espírito Santo nos diz na Bíblia que se alguém falar para a igreja, fale segundo a Palavra de Deus (1Pe 4:11), que é a espada do Espírito Santo (Ef 6:17), não indo além do que está escrito (1Co 4:6), nada acrescentando (Pv 30:6) nem diminuindo (Dt 12:32).
Profetas como Jeremias e Ezequiel dirigiram advertências duríssimas para todos os que de forma pretensiosa reivindicavam ter uma palavra de Deus: Eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, que usam de sua língua, e dizem: Ele disse (Jr 23:31). Não tivestes visões falsas e não falastes adivinhação mentirosa quando dissestes: o Senhor diz, sendo que eu tal não falei (Ez 13:7)?
Por isso, ao sentirmos alguma direção fora da Bíblia, mais prudente do que falarmos "Deus disse", é sermos simples como o rei Ezequias, que disse "isto me veio ao coração (2Cr 29:10)", um cuidado coerente para quem leva o terceiro mandamento a sério (Ex 20:7): não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão. Certamente se estivermos proclamando nossas idéias, sentimentos, especulações e imaginações humanas como revelações divinas estaremos desobedecendo este mandamento.

10 - Afirmamos que as revelações fora da Bíblia não têm correspondido aos atributos das palavras vindas de Deus.O crente que diz falar em nome de Deus está reivindicando para as suas palavras a autoridade do próprio Deus, o que significa que suas palavras deveriam ser obedecidas fielmente (Dt 27:8-10) e deveriam ser infalíveis (Is 34:16) e eternas (Is 40:8).
As supostas revelações fora da Bíblia cumprem estes requisitos? Têm a autoridade infinita de Deus? São certas? Claras? Universais? Divinas? Perfeitas? Nunca falham? Duram para sempre? Se não, não podem ser consideradas Palavra de Deus. Seca-se a erva e caem as suas flores, mas a Palavra do nosso Deus dura eternamente (Is 40:8). Deus poderia falar de forma menos grandiosa? Resposta no Sl 29.
Surpreendentemente, seguindo este raciocínio, até mesmo um pregador pentecostal como Marcos Feliciano foi capaz de admitir que “Deus fala muito pouco, porque tudo que Ele fala tem que se cumprir”[16].
Só a Bíblia cumpre todas as condições para ser considerada Palavra de Deus, pois é uma revelação pública, universal, eterna, infalível e com autoridade divina. As revelações dos católicos, mórmons, adventistas, testemunhas de Jeová, pentecostais e neo-pentecostais não têm cumprido estes requisitos, principalmente no que se refere a serem infalíveis.
Por isso que proclamamos “só a Escritura”.

11 - Afirmamos também que as revelações extra-bíblicas, além de não terem características de Palavra de Deus, ainda costumam contradizer a Palavra bíblica em vários outros aspectos.a) As revelações extra-bíblicas costumam criar orgulho naqueles que as ditam. Em contraste, na Bíblia, aqueles que tinham experiências sobrenaturais com Deus tornavam-se muito mais humildes (Jó 40:1-5;42:1-6; Is 6:5; Gn 18:27). Pouco se tem refletido sobre o pernicioso efeito moral na igreja de se exaltar experiências extra-bíblicas: além do orgulho[17], as invejas, competições, vaidades, idolatria dos “iluminados”, exageros e falsificações em busca do reconhecimento social de um grupo que só quer “ver pra crer”. Mas Jesus diz: Bem aventurados os que não viram e creram!
b) As revelações extra-bíblicas costumam falar o que as pessoas querem ouvir. Em contraste os profetas de Deus falavam a verdade sejam quais fossem as conseqüências (1Rs 22:10-28; Am 7:8-17).
c) As revelações extra-bíblicas costumam elogiar os servos de Deus. Em contraste a Bíblia ensina que Deus elogiará os Seus servos no dia do Juízo Final (Mt 25:19-21).
d) As revelações extra-bíblicas costumam exortar as pessoas a fazer apenas obras religiosas: mais jejuns, mais vigílias, mais campanhas. Em contraste, os profetas de Deus condenavam a religiosidade superficial e pregavam a prática de verdadeira justiça e igualdade na sociedade. Misericórdia quero e não sacrifício (Os 6:6; cf. Is 58:1-14;1:11-19; Am 5:21-24; Zc 7).
e) As revelações extra-bíblicas costumam adivinhar a vida dos outros e o futuro. Em contraste, a prática da adivinhação é considerada abominável e proibida por Deus em Dt 18:9-14. A ti, o Senhor teu Deus não permitiu tal coisa (...) Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã (Dt 18:14; Tg 4:14). (O peso da prova está com os pentecostais. Eles precisam demonstrar que suas “revelações” não têm nada a ver com as práticas condenadas em Dt 18).
f) As revelações extra-bíblicas costumam trazer Lei, mas as profecias da Bíblia trazem o Evangelho (Ap 19:10)[18].
g) E o que é mais estranho, as revelações extra-bíblicas costumam falar muito do Diabo e do que ele faz. Em contraste, a Bíblia ensina que o Espírito Santo veio para falar de Cristo (Jo 15:26), para testemunhar das obras de Jesus, não das obras dos demônios!

12 - Afirmamos que as revelações extra-bíblicas costumam diminuir o interesse na Escritura, à medida que proliferam e dão a impressão de serem “as palavras de Deus para hoje”. E pior, diminuem também o valor prático da Bíblia: “o primeiro dano que as Escrituras sofrem com a presença de uma palavra revelada é a perda de sua suficiência[19]”. De forma bem diferente dessas novas revelações[20], o ‘antigo’ texto bíblico o tempo inteiro exalta e estimula o interesse na Escritura mesma como suficiente para suprir as necessidades do crente (Sl 1:2; Sl 119:50; Jo 17:17; Ap 1:3).

13 - Afirmamos que as revelações extra-bíblicas são sempre incertas.Sempre. No momento em que são ouvidas, sentidas ou vistas, a pessoa nunca pode saber se é realmente uma palavra de Deus.
E o pior é a incerteza se tal “palavra” vai se cumprir ou não. Um tipo de incerteza que já quebrou vários corações que confiaram numa mensagem fora da Bíblia e desiludiram-se ao verem que ela não se cumpria. Viram vaidade e adivinhação mentirosa os que dizem: O Senhor disse; quando o Senhor não os enviou; e fazem que se espere o cumprimento da palavra (Ez 13:6).
Por causa disso, muitos só proclamam a idéia ou impressão como “de Deus” depois que veio a se cumprir. Nem se considera as milhares e milhares de impressões e idéias que correm o dia inteiro pela nossa cabeça, mas que nunca acontecem. Assim é fácil, se a gente só revelar as idéias que já deram certo, nunca seremos expostos ao teste da infalibilidade (Dt 18:22).
Talvez muito disso ocorra também quando temos uma idéia sobre um assunto que mencionamos em oração. Claro, se a nossa idéia é uma possível resposta à nossa oração, é normal que consideremos essa idéia como uma resposta de Deus.
Mas esse método é confiável? Não podemos facilmente nos enganar e pensar justamente no que queremos que aconteça? Por que nossa imaginação deveria ser considerada “voz de Deus”? Só porque aconteceu após, ou durante uma oração? Quem garante que é “a voz de Deus”? Durante a oração nos tornamos infalíveis? Durante a oração nos fundimos com a mente de Deus? Não é verdade que também durante a oração nos distraímos e pecamos em nossos pensamentos? Pode-se confiar totalmente nos pensamentos que nos ocorrem durante ou após a oração? Podemos confiar em nossa mente? Somos confiáveis?
Mas ainda que a “revelação” venha a se realizar, como o crente pode provar que sua “revelação” não foi apenas uma idéia correta? Qualquer coincidência ou palpite certeiro pode ser candidato a “revelação vinda de Deus”? Que diferença existiria então entre o crente e o não-crente? Estes também não podem ter palpites corretos? Por isso vamos dizer que receberam revelações de Deus? Que valor sobra para a Palavra? Para que a Bíblia é necessária ainda? Somos exortados pela Escritura a confiar em coincidências? Qual texto bíblico diz isso?
“Sem a centralidade da Palavra tornamo-nos náufragos e sem rumo. Temos impressões, mas não direção!” [21].
De forma bem diferente, a Palavra bíblica reinvidica para si um caráter totalmente confiável, o tempo inteiro. Nenhuma dúvida é lançada, nela tudo se cumpre perfeitamente, dela tudo se ensina infalivelmente. Para sempre, ó Senhor a Tua palavra permanece no céu; Tua Palavra é a verdade; temos mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem [fazemos] em estar atentos (Sl 119:89; Jo 17:17; 2Pe 1:19).

14 – Afirmamos que a igreja não prende o Espírito Santo na Palavra, mas na verdade está honrando-O, quando deseja ser orientada somente pela Bíblia.Isto porque foi o Espírito Santo quem quis se manifestar desta forma ao mundo, através de uma divina carta, onde Ele já revelou tudo que julgou precisarmos saber. O revelado é nosso, o escondido é dEle (Dt 29:29), não devemos investigar o que Ele não quis revelar.
Se queremos que o Espírito Santo atue em nosso meio, o nosso principal dever é pedir que Ele use a Sua espada, a Palavra (Ef 6:17). Mas como pedir isso com coerência, se ao mesmo tempo desprezamos a Palavra, quando buscamos a voz do Espírito Santo por outros canais?

15 – Reforçamos a igualdade cristã na igreja.A igreja orientada pelo misticismo das experiências particulares inevitavelmente vai fazer comparações entre os crentes “mais espirituais” e os “menos espirituais”. Uma classificação certamente injusta e arbitrária, que pode dar ouvidos às sugestões e especulações mais impulsivas, inconseqüentes, precipitadas, imaturas, irrefletidas e emocionalistas que possam surgir entre os membros da igreja, desde que tenham aparência “espiritual” dada por, talvez, uma postura ou tom de voz estereotipado, ou ainda pela repetição de clichês evangélicos.
Quanto mais impactante, mais espiritual? Quem definiu esse critério? A Palavra de Deus, ou o nosso desejo secreto de ser entretido, emocionado e exaltado por Deus?
Enquanto isso os crentes que pratiquem a prudência e reflitam na Palavra para encontrar nela a sabedoria para decidir serão desprezados por não terem uma palavra fresquinha vinda de uma “entrevista exclusiva com Deus”.

Além disso, quando a confiança plena na Bíblia é abalada ou desvalorizada para enfatizar outras autoridades, uma das que mais será incrementada é a autoridade dos líderes. Quando as experiências humanas são fonte de doutrina e prática para a igreja, quase sempre a igreja vai ter que fazer distinção entre o valor dos crentes.
É possível que experiência e opinião do líder então, seja considerada mais divina do que as experiências e opiniões dos liderados, afinal, é necessário um critério para decidir a verdade, caso haja discordância. Se não é a palavra de Deus, o critério costuma ser a opinião do “homem que Deus colocou sobre a igreja”.
Não é por acaso que dificilmente se vê uma igreja pentecostal que seja realmente democrática, embora a hierarquia não seja algo que ocorra só no pentecostalismo; mas este problema é mais reforçado ainda quando na prática se coloca a palavra final sobre uma experiência humana, não sobre a mensagem da Escritura. O misticismo costuma piorar o pecado da hierarquia.

Mas quando a Bíblia é considerada a única fonte confiável de autoridade, relativizam-se todas as outras fontes, inclusive a da autoridade da liderança da igreja.Todos os membros estão em igual nível, porque a Bíblia está sobre todos, como única representação infalível da vontade de Cristo, o único Governante da Igreja.
Paulo alerta que muitas das proclamações baseadas na experiência são invocadas para satisfazer um desejo de ser exaltado sobre os crentes: não deixem que ninguém os humilhe, afirmando que é melhor do que vocês porque diz ter visões e insiste numa falsa humildade e na adoração de anjos. Essas pessoas não têm nenhum motivo para estarem cheias de si, pois estão pensando como qualquer outra pessoa pensa, elas não estão ligadas a Cristo, que é a cabeça (Cl 2:18,19).
Em contraste com a teoria de que Deus colocou líderes visíveis para serem os principais “canais de benção de Deus para a igreja”, o que a Bíblia diz é que o Cabeça invisível da Igreja, Jesus Cristo, exerce o Seu governo quando TODOS os membros contribuem para a edificação da igreja: ... Cristo controla o corpo todo (Cl 2:19); segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor (Ef 4:16).
Mas isto veremos com mais detalhes no quarto princípio da Reforma: “somente por Cristo chegamos a Deus”.
[1] James McGoldrick. Os três princípios do Protestantismo. Texto eletrônico.
[2] Matthew Henry. Em Pérolas para a vida. John Blanchard. Ed. Vida Nova. p. 41.
[3] Trecho das Dez Conclusões de Berna, documento anabatista, editado em livro de John H. Leith, citado em Teologia dos Reformadores, Timothy George. Ed. Vida Nova. p. 313.
[4] Moisés Bezerril. Comunicatio extra scripturae. Texto eletrônico.
[5] João Alves dos Santos. As doutrinas da Reforma. Texto eletrônico. (http://www.scribd.com/doc/44466/As-Doutrinas-da-Reforma). (19/01/2008).
[6] Confissão de Fé de Westminster (1649).
[7] Martinho Lutero. Em Pérolas para a vida. John Blanchard. Ed. Vida Nova. p. 47.
[8] “Não temos entre nós uma pessoa que tem revelações especiais de Deus. A revelação de Deus está na sua Palavra, a Bíblia. Qualquer crente sincero, iluminado pelo Espírito Santo, pode compreender seus ensinos. Pode não penetrar nas sutilezas teológicas ou textuais originais, mas compreende a essência” - Isaltino Gomes Coelho. “Sou batista”. Texto eletrônico. Congresso de Identidade Denominacional. (27/04/2001).
[9] J. Udo Siemens. Perguntas da Igreja Brasileira e respostas do Movimento Anabatista. Texto eletrônico.
[10] Francis Schaeffer. Em Pérolas para a vida. John Blanchard. Ed. Vida Nova. p. 43.
[11] João Calvino. As institutas da religião cristã. Vol. I. Casa Editora Presbiteriana, 1985. (p. 110).
[12] Idem.
[13] João Calvino. As institutas da religião cristã. Vol. I. Casa Editora Presbiteriana, 1985. (p. 110).
[14] Idem (p. 110-111).
[15] João Calvino. As institutas da religião cristã. Vol. I. Casa Editora Presbiteriana, 1985. (P. 108).
[16] Frase proferida em pregação na TV (2006).
[17] “Cada vez que um desses entusiastas se gaba de sua mensagem recebida do Espírito, geralmente é com o intuito de sepultar a Revelação de Deus, para que eles estejam no centro do palco e recebam a atenção de todos” – João Calvino. Citado por Michael Horton em A Escada de Jacó. Sermão gravado. http://www.editorafiel.com.br/detalhes_videoteca.php?id_conf=26#
[18] Este pensamento vem de um texto de Caio Fábio, sendo ele próprio um adepto de práticas pentecostais.
[19] João Alves dos Santos. As doutrinas da Reforma. Texto eletrônico. (http://www.scribd.com/doc/44466/As-Doutrinas-da-Reforma). (19/01/2008).
[20] Já ouvi comentários do seguinte teor: “na sua igreja o pastor tem que estudar a Bíblia? Então vocês comem comida fria. Na nossa a comida é quentinha, Deus entrega na hora”.
[21] Renato Vargens. Texto eletrônico. <http://groups.yahoo.com/group/cristaos-reformados/> (2004).
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