segunda-feira, 2 de junho de 2008

Quem define as tarefas de um pastor? A cultura ou a Bíblia?

Quais são as tarefas dos pastores de uma igreja?

A resposta pode variar se a pergunta for feita a um não-crente, um novo convertido ou um crente antigo. Também pode variar muito de denominação para denominação e de igreja para igreja. Mesmo dentro de uma mesma igreja, podem haver várias opiniões diferentes entre os membros. E o pior, pode haver discordância entre as igrejas e os pastores no que devem fazer, causando frustrações e desentendimentos.

Para dificultar as coisas, além das diferenças de interpretação da Bíblia, existem idéias de fora da Bíblia, que são colocadas pela cultura religiosa ou secular sobre os pastores, que distorcem bastante a nossa visão sobre o que seja um pastor.

DISTORÇÕES CULTURAIS MAIS COMUNS

a) O “padrinho”. Aquele que vai resolver os problemas de todo mundo. Aquele que recebe as nossas reclamações dos outros. Aquele a quem pedimos para punir os outros membros que nos fizeram mal. O chefe da panela. Aquele que vai nos colocar no cargo que queremos. Aquele que vai arranjar a verba que pedimos. Aquele que temos que defender a todo custo. Aquele com quem trocamos favores. A lealdade ao pastor se torna mais importante que a lealdade ao Evangelho ou à Bíblia. A ética é relativizada para o que for conveniente. O padrinho e os apadrinhados acobertam e são cúmplices nos erros uns dos outros. A troca de favores é o que mais influencia nas suas decisões.

b) O homem forte. O “coronel”, o “senhor de engenho”, o “comendador”, são figuras ainda presentes no nosso pensamento, e que estão escritas na nossa cultura. Nosso povo vem de 500 anos de escravidão, 30 anos de ditadura, não está acostumado à democracia e às idéias de igualdade. Um povo facilmente subordinado, que espera ser mandado, e na verdade estranha o fato de ter direitos. Está acostumado a obedecer sem reclamar e por isso acha normal o líder ordenar sem explicar. Não só o povo pode esperar uma liderança assim, como muitos candidatos ao pastorado mal escondem que sua motivação não é cuidar das ovelhas, mas a sede de poder, a vontade de dominar sobre a vida dos outros. Esse tipo de subordinação escrava nada tem a ver com a submissão mútua ordenada na Bíblia, pois esta é de todos para todos (Ef 5:21). Tragicamente, o povo que quer ser mandado costuma rejeitar um pastor que trabalhe pela igualdade e promova a responsabilidade de todos. Tanto nesta distorção, como na distorção citada acima, o que temos na igreja não são mais “servos de Deus”, mas sim um tipo de “servos de pastor”.

c) O messias. É quando a igreja espera que o pastor seja o crente que os membros não são. Que seja mais santo que o normal, que seja melhor que eles em tudo. Que ore mais que todos, que saiba mais de Bíblia que todos, que conheça mais a Deus que todos. Que ocupe um outro nível de vida cristã e consagração. A sua oração é valorizada como mais forte que a de outros crentes. Espera-se que sua super-espiritualidade leve a igreja a um novo patamar. Que por causa dele Deus abençoe a igreja. Tal como aquele que disse agora sei que o Senhor me fará bem, porque tenho um levita por sacerdote – Jz 17:13. A preguiça espiritual dos membros é responsável por muito deste pensamento. Querem ser levados ao céu assentados num táxi, tendo o pastor como motorista.

d) O sacerdote. O pano de fundo do catolicismo na vida de muitos crentes traz para a igreja evangélica essa distorção, que aliás não vem só do catolicismo, mas também de outras religiões onde há pessoas-chave que fazem mediação entre sobrenatural e o natural. Nesta distorção a maioria das tarefas da igreja são concentradas no pastor, que se torna um mediador das coisas de Deus para a igreja. Tudo tem que ser feito por ele, para ter efeito. Todos os ministérios são executados exclusivamente pelo pastor. Ele se torna uma mini-igreja, e os crente se tornam meros receptores e espectadores.

e) O empresário. O século vinte nos “brindou” com mais uma distorção cultural do pastorado, aquela que vê a igreja como um negócio, avalia a saúde da igreja pelo número de membros e entrada financeira. Que espera do pastor habilidades gerenciais. Que se deslumbra com símbolos de poder econômico, consumo e status social. Que mede o pastorado pelas construções, expansões, eventos e programações que o empresário promoveu. Espera dele um gerenciamento eficaz e moderno. Traz a tendência de escolher pastores de maior poder aquisitivo que os membros da igreja, pois a prosperidade financeira é a prova da bênção de Deus. A igreja na verdade admira a posição social desse pastor, não o seu cristianismo. Os membros querem é ser “bem-sucedidos” como ele. É uma avaliação completamente mundana.

f) O artista. Outra distorção moderna. A igreja espera alguém que tenha sempre boas palavras, pregações interessantes, em resumo, que lhe dê entretenimento. O pastor torna-se um show-man. Sua função é fazê-los se sentirem melhor e realizados em suas vidas. A igreja não é lugar de compromisso, mas uma atividade de lazer com ingresso pago.

Mesmo que Deus nos abençoe grandemente, de modo que possamos nos expurgar dessas idéias erradas de pastorado, ainda nos resta outra tarefa difícil.

Trata-se de estabelecer as prioridades de acordo com a Bíblia. Muitas das tarefas que esperamos do pastor simplesmente não estão na Palavra. Um exame cuidadoso e imparcial é necessário para distinguir entre as:

a) Tarefas da cultura: Aquelas que a sociedade e igreja esperam do pastor ou do religioso profissional, mas que não são mencionadas pela Bíblia, e na verdade são tradições criadas em cima da imagem do pastor, conforme o tempo foi passando. Sendo assim, não são obrigatórias, e não podem ser a prioridade do ministério pastoral.

b) Tarefas da igreja: Aquelas atividades que são bíblicas, mas que não estão ligadas o ministério pastoral, na verdade, foram concentradas nos pastores por uma decisão das igrejas, mas que biblicamente podem ser realizadas por todos os crentes, ou pelo menos pelos considerados pela igreja como aptos para elas, mesmo que não tenham o cargo de pastor.

c) Tarefas pastorais: Aquelas atividades que biblicamente estão relacionadas ao ministério pastoral, e que por isso devem receber a prioridade no tempo e esforço dos pastores, ainda que não sejam exclusivas deles[1].

Dentro deste exercício, tentei classificar as atividades que mais vejo serem relacionadas a pastores e cheguei a esta divisão:


Tarefa
Cultural
(não ordenada pela Bíblia)


Celebrar casamento
Exercer capelania militar
Execer capelania política
Exercer capelania escolar
Oração "especial" em eventos sociais
Celebrar culto de formatura
Discursar em festa de quinze anos
Fazer funeral
Celebrar dedicação de bebês
Dar a bênção apostólica
Governar a igreja


Da Igreja
(que é bíblica, mas NÃO EXCLUSIVA ao pastoreio)


Administrar a igreja
Ensinar
Evangelizar
Conduzir o louvor
Exercer a disciplina cristã
Batizar
Celebrar a Ceia
Pregar
Dirigir o culto




Pastoral
(que a Bíblia diz ser essencial ao pastorado)

Discipular
Visitar os afastados
Visitar os doentes
Visitar sistematicamente os crentes
Cuidar dos crentes nos seus sofrimentos e desafios
Aconselhar a igreja
Aconselhar os crentes
Promover o crescimento espiritual dos crentes



Um texto bíblico muito ignorado, mas que era essencial para as igrejas do Novo Testamento definirem as tarefas do pastor (afinal a Bíblia que elas tinham era o Antigo Testamento) é o de Ezequiel 34:1-22.

Se invertêssemos as omissões dos pastores de Israel, de forma que tirássemos de cada versículo as tarefas que nosso Deus espera que os nossos pastores realizem, estaríamos mais perto da vontade do nosso Deus para nós, Seu povo:

Ex: Verso 6: “As minhas ovelhas andaram desgarradas por todos os montes, e por todo o alto outeiro; sim, as minhas ovelhas andaram espalhadas por toda a face da terra, sem haver quem perguntasse por elas, nem quem as buscasse.”

De acordo com estes versículos, a vontade de Deus e as tarefas dos pastores são que:
1 - As ovelhas de Deus não devem andar desgarradas e espalhadas.
2 - Os pastores devem perguntar pelas ovelhas.
3 - Os pastores devem buscar as ovelhas.”

Fica esse exercício para quem interessar possa:
Ler calmamente Ezequiel 34, e com oração perseverante, (re)descobrir ou (re)lembrar a essência do ministério pastoral, para a glória do Deus que nos pastoreia.






[1] Nunca é demais lembrar: na igreja de Cristo não existe exclusividade, existe especialidade.
Ainda que cada crente deva se dedicar às tarefas que correspondem aos dons que Deus tem lhe dado, e observar as distribuições de tarefas que a sua igreja tem feito, nenhuma tarefa é exclusiva de nenhum crente, e um certo envolvimento de todos em tudo não deve ser visto como subversão, mas como consagração da igreja inteira.
Cada um tem a sua parte no trabalho, mas todos são responsáveis por tudo, e devemos cobrir as lacunas uns dos outros amorosamente e espontaneamente. Isso deve valer para o ministério pastoral também.

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